terça-feira, 12 de julho de 2016

FLORES DE INVERNO

Inverso ao que é próprio do inverno, nesse ciclo ele aqueceu, descongelou, como num processo criogênico, uma parte de mim tão essencial, tão sublimemente essencial, que minh’alma parece mesmo colher flores que parecem regadas de memórias, de memórias de sorrisos, de memórias de liberdade, sonho...
Acho que a alma tem mesmo desses artifícios de, vez ou outra, criar pontes que parecem se projetar de nós mesmos para nos libertar dos abismos que equivocadamente cavamos...
O fato é que, em pleno inverno, minh’alma floriu...  
Tentar trazer à palavra essa sensação é uma tarefa tão confusa, porque sempre que acesso isso em mim, a vontade primeira é fechar os olhos e ficar no mais profundo silêncio, experimentar apenas, mas não posso não comunicar, é muito pra ficar em mim.
Sempre tive o hábito de experimentar a vida... Já nasci com esse suposto defeito de fabricação, mas se me convidassem a tentar ensiná-lo diria: aguça teu olhar e presta atenção em tudo, não deixa escapar à tua sensibilidade nenhum detalhe!!! Talvez esse seja o mistério: uma vida de sensíveis detalhes. É nas sutilezas escondidas que a vida mostra sua exuberância! A alegria real não está na festa surpresa, com o bolo gostoso e os amigos sorridentes; está, na verdade, no momento em que alguém, motivado por amizade, quis celebrá-la fazendo a festa. Embora palavras bonitas encantem nossos corações, o amor talvez não esteja nas palavras afetuosas aprendidas em romances e poemas, mas na bronca grosseira e impensada de alguém que nos ama demais para aceitar sermos menos que o melhor que podemos ser ou fazer (ao menos naquele momento).
A diferença está nos detalhes, em particular nos aparentemente escondidos. A verdadeira brincadeira é encontra-los. Talvez eu tenha maior facilidade em perdoar um erro grande e imbecil, mas me firo mortalmente quando se descuidam dos detalhes... Eles são a exceção, não a regra... É o que sai do script... É aquela marca única que deixamos nus nos outros, tão individual e irrepetível quanto nossas impressões digitais.
Falava do inverno... nele fui pra casa, minha origem, o lugar sagrado da minha subjetivação onde as paredes, se pudessem delatar quantos sonhos presenciaram me colocariam nu diante do mundo. Reencontrei, sem pretensão amigos com a sensação de que nos havíamos encontrado no dia anterior, quando já fazia anos do nosso último encontro. Sorrimos os sorrisos leves da nossa infância, como se pudéssemos sair da forma que define infância e senilidade. E eu voltei a sonhar com o infinito, a deseja-lo como quem deseja água numa trajetória escaldante pelo deserto, mesmo sendo inverno.
E tudo voltou a ficar tão apertado, os moldes nos quais passamos a vida inteira querendo caber tão incabíveis... Como quando viajamos, fazemos nossa mala perfeitinha e, na volta, mesmo sem nada novo, as roupas não cabem onde há pouco couberam (risos), é que desconsideramos que, viajando, na volta, além de roupas levamos sonhos, que não vemos mas ocupam espaços em nós. Nesse inverno, viajei pra junto de mim e, ao tentar voltar, as coisas já não cabem nas malinhas onde sempre couberam...
Agora não sei lidar com a sublimidade desses dias. O inconvencional dá trabalho! Talvez por isso gostemos tanto dos moldes... os meus já não me servem e a alma se projeta, como num presságio, de que algo espetacular está sempre prestes a acontecer e, embora o desejemos, dá medo. Tendo como meta me tornar uma das pessoas mais felizes desse mundo, equivocadamente, tenho medo de ser feliz demais sem poder entender essa felicidade.
Ao nosso Pai generosíssimo o recado: mesmo sem merecimento, estou pronto para o novo e desde já o agradeço.
Ao povo da casa verde da orla do canal de São Miguel, o Grin, Neidinha, Ana (a bonita), Fabinho (o neguinho de mainha), Zé e Zita, obrigado por guardar partes minhas que, quando em contato com vocês, me fazem mais completo. Sejamos felizes!!! Muito felizes!!! Porque quando um de nós o é, toda a humanidade torna-se mais feliz um pouquinho também.

Sugestão de música:
https://www.youtube.com/watch?v=cCYc8x4w6Lw

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

FOCO NA RELAÇÃO?

Hoje dei por pensar nessa questão...
A palavra FOCO ganhou ampla divulgação em todas as redes de comunicação social quando a linguagem esportiva foi adaptada para a linguagem de negócios e passou a ser gritada em workshops motivacionais mundo afora.
Não é pra menos! Não com pouca propriedade, sempre se estimulou os atletas a perseguirem seu foco, mantê-lo na mente, para não correr o risco de perder a concentração com distrações inúteis que os pudesse tirar o pódio.
Também nos negócios, o foco num resultado específico estimula a não perder tempo e esforço na conquista de resultados paralelos e nada úteis a obtenção do lucro.
Nos esportes o pódio; nos negócios o lucro... Qual o sentido do foco na relação?
Vivemos numa época onde a palavra de ordem parece ser LIBERDADE. Nas relações, essa suposta ideia de liberdade parece vir criando um eu-centrismo onde os espaços de cada um vão ficando cada vez melhor delimitados e, em alguns casos, intransponíveis... A relação se resume a uma interação social num passeio com os amigos, numa festa de família, numa ligação antes de dormir ou, antes e acima de tudo isso, a uma boa noite de sexo. Cumpridas essas condições, parece estar estabelecida a relação...
Mas quando se está no espaço reservado, no suposto ambiente de liberdade, que melhor poderíamos chamar de ambiente do ego, a alma vagueia... São muitos os apelos e de todos os lados: redes sócias, aplicativos, vícios; e cada vez menores as culpas... E culpas porquê? Não é mesmo? Esse já é um hábito comum – TODOS FAZEM!!!
Pensando bem, que mal pode haver em estimular uma paquera numa rede social? Bater um papo via mensenger com alguém que sabemos que tem para conosco quintas intenções?  Flertar com alguém que nos agrada na rua (afinal, não estamos mortos)... Que mal pode haver nisso? Basta que não se concretize! Todo mundo perde aí umas horas fuçando no perfil pra ver se aquela paquera antiga que nunca mais nos procurou já arranjou alguém, ou querendo conhecer um pouco mais de alguém cujo perfil pareceu interessante... Que mal pode haver?
A RESPOSTA É OBVIA – mal nenhum!!! São questões do âmbito do individual. Pode ser até um excelente remédio pra sanar dores ou alimentar o ego dos de baixa estima ou inseguros.
A única questão mesmo está no FOCO ou, melhor dizendo, da perda dele.
Você acredita estar numa relação com alguém... Algum motivo, talvez até um afeto genuíno, te prende a essa pessoa... Mas ela é SÓ MAIS UMA, perdida na quinquilharia do seu múltiplo foco... Nessa dinâmica estabelecida, ela é somente mais uma objeto na sua estante, sem real valor definido, de forma a você em alguns momentos mesmo relativizar seu valor, subjugando-a diante de algo ou alguém de aparente maior valor, acreditando que pode fazer uma substituição sem danos... talvez por isso tantas supostas relações se façam e desfaçam com tanta facilidade... Todas tem valor relativo nessa seara de possibilidades e focos...
Já parou pra pensar que o tempo que você gasta em seus devaneios pueris poderiam ser convertidos num foco afetivo? Sabe aquela coisa de você dedicar tempo em conhecer aquela pessoa que está do seu lado, decifrar-lhe as manias, conhecer os sonhos e as taras e ir realizando-os suavemente e devagar... Pouco a pouco, o tempo dedicado àquela pessoa em particular vai mostrando o quanto ela é única, incrível, cheia de medos cuja sua coragem seja capaz de dar segurança e forças para suprir os medos seus... Na distância, a companhia que passa a te agradar é a lembrança dos momentos incríveis juntos ou o planejamento da próxima arte a realizar...
O foco singulariza o amor, estabelece relação, faz-lhe brilhar, ao passo que o múltiplo foco relativiza, minimaliza, adormece a paixão.

Talvez o que nós precisemos de verdade é de mais pessoas com menos foco no umbigo e mais foco no amplitude que o outro é capaz de abrir...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

TÃO EU!!!

Hoje acordei tão eu... kkkkkkk...
Sei lá! Existem muitas formas de acordar... O espelho é quem reflete essas formas: às vezes acordamos e nos achamos bem bonitos; outras vezes nos achamos um bagaço...
Mas hoje eu me achei tão EU! Nem bonito nem bagaço – EU apenas...
Olhei e me vi sem adereços, sem roupas, sem enfeites, sem cuidados... Barriga quebrada por cirurgia recente, barba feita há dias e agora sem formato nenhum, resto de cabelo por fazer (um careca precisa cortar os cabelos com mais frequência que um cabeludo, por mais estranho que possa parecer (risos não, “gaitadas”)...
Olhei esse conjunto aí, que está mais para o ruim que para o bom mas, pra minha surpresa, GOSTEI TANTO!!! Olhei-me nos olhos no espelho com uma emoção tão gostosa que, sem saber ao certo como explicar, acho que se assemelha a de alguém ao acordar ao lado do seu velho companheiro, remelado e com aquele velho bafo matinal, no mais íntimo do seu coração pensa: “como é bom acordar ao seu lado, meu velho companheiro de tantas lutas...”, e enxerga nele BELEZA. Talvez não a beleza estética que nossos dias de aparências apregoam, mas a beleza dos dias, dos sóis que pigmentaram e marcaram as rugas que são testemunhas de tantas coisas, das mais simples às mais incríveis...

Olhei pra mim, essa manhã, assim!!! Algo como se olhasse para um outro alguém com quem me fez muito bem acordar junto, mesmo com o “bucho quebrado”, a “cabeleira meia” e a barba por fazer e enxergasse a beleza comum, simplória e escondida na nossa cotidianidade...

quarta-feira, 27 de maio de 2015

FLORES, AMORES, PESO VS LEVEZA, E UM GRANDE TANTO FAZ...



É engraçado como tudo pode mudar quando fazemos o exercício de olhar diferente, de inverter o ponto de vista, de olhar com o olhar do outro... Nesse exercício se muda tanto de papeis entre vilão e mocinho que chegasse mesmo a desconhecer a existência de um papel, que na verdade nunca existiu... ou existiu, não sei...
A questão é que fiz esse exercício, e o resultado foi surpreendente!!!
Vivo alardeando uma proposta de vida: viver simples! Nela, vai-se liberando coisas, pesos, medidas, estruturas, e enxugando a existência de forma a não ter muito com o que se preocupar de concreto: nada de carros para se preocupar com estacionamentos – chinelo e mochila; nada de mansões para se preocupar com manutenção e limpeza – fotos na parede pra ter perto quem se ama, e meia dúzia de móveis cheios de significado, e indo por aí nesse sentido, sabe? É meio paradoxal sentir e pensar assim em pleno século XXI quando o capital tem tanto valor. Ganhar dinheiro é necessário, mas às vezes passasse mais tempo ganhando ele que usufruindo os benefícios que ele pode trazer... Pergunto: vale a pena mesmo?
Enfim, não era a isso que queria chegar ao começar esse post, mas precisava passar por isso pra dizer que, assim, com medidas como essa, acaba me sobrando tempo e estrutura pra viver a vida que entendo como vida, uma vida dentro, sentida, pensada, experimentada, temperada, entendida, desentendida... Algo mais que “ir existindo” entre o nascente e o morrente (na fala do saudoso coronel Ludugero). Entre o nascente e o morrente, UM VIVENTE.
Retomando lá atrás o papo de trocar de lugar, inverter os pontos de vista, os olhares; acreditando mesmo levar essa vida simples, leve; descobri que, pra quem vê de fora, e pra mim também, ela não tem nada de leve, ao contrário, é EXIGENTE demais.
Os outros é que vivem leves de verdade!!! Relativizam tudo, fazem dessa e de todas as coisas um grande “tanto faz”... Vive-se o momento sem reflexões, sem culpas... Vão-se construindo como num mosaico de pedaços que vai montando alguma coisa meio “ARTE MODERNA”. KKKKKKKK... Eu, do meu lado, construo minha vida como uma peça “ROCOCÓ” numa sala em branco, cheia de detalhes, de arabescos, de iluminuras, esculpida na pele, na alma, pela visceralidade da coisa mais simples e aparentemente sem significado.
Agora pergunto: “Quem é mesmo leve? Quem é mesmo simples?”
Hoje sei que eu não sou! Não consigo viver esse “tanto faz”, esse “todo mundo faz”, me nego a ser esse SUBSTANTIVO COMUM. Sou SUBSTANTIVO PRÓPRIO. Vou demarcando a minha história com momentos que se tornam significativos, como se deixasse um rastro de migalhas pra saber voltar pra casa, pra minha origem, pra origem de tudo, pra saber quem sou, pra definir o quanto andei (se em frente ou em círculos). Por isso, vivo o peso de sentir tudo, de experimentar cada palavra e os seus significados antes delas saírem da minha boca (ao menos sempre que posso). Não sei viver esse tanto faz comum e popularizado... Não sei dizer esse “eu te amo” que, quando não sentido, é desrespeitoso, agressivo. Não mando flores sem cartão que, por sua “não singularidade” tem a mesma naturalidade das flores de plástico. Não sei deixar as coisas passarem sem significá-las...
Pergunto mais uma vez: “Quem é mesmo leve? Quem é mesmo simples?”
Caramba! Não tenho como não prestar aqui minha homenagem aos verdadeiramente simples. Acho lindo demais quem vai vivendo, sorrindo quando tem vontade, chorando quando é preciso, sendo o que o momento pede que sejam... Vivendo simplesmente...
Aí olho pra mim, esse burro empacado, teimoso (penso nos meus pais e tenho dó deles, kkkkkkkk...). Não sei ser simples. E o pior, esse não saber não me estimula a querer aprender. Quero mesmo continuar insistindo em minha construção, minhas migalhas deixadas, minhas significações, minha mochila de coisas poucas e uma mente e um coração de coisas muitas, encantando a minha vida, fazendo ela ser um milhão em uma só, quase um elefante de pesos e significados.

Aos leves, um abraço gostoso e desculpas sinceras, vocês são lindos!!! Muito bom contemplá-los!!! Não fiquem tristes comigo!!! Talvez um dia eu mude, quem sabe... Mas, por hora, e talvez pra sempre, VOU CONTINUAR PIRRAÇANDO.

domingo, 9 de novembro de 2014

COM QUE ZELO VOCÊ TEM CUIDADO DAS SUAS RELAÇÕES?

Você TEM CUIDADO das suas relações?  Desculpa! Emprego do verbo em continuidade... Melhor perguntar: Você CUIDA das suas relações?
Se a resposta for SIM, parabéns! Mas temo que seja NÃO para a maioria de nós...
Todas as coisas estão postas ao cuidado!
O que não se cuida gasta, perde, estraga, pui, decai... Todas as relações estão postas ao cuidado. Não existe relação unilateral, relação imprescinde ao menos dois em troca e gratuidade.
Que droga! Quando é que a gente vai entender que as relações não se fazem sozinhas? Elas carecem de investimento, dedicação, cuidado, zelo...
Mas, se olharmos com atenção, veremos que somos um bando de imbecis, autocêntricos, vivendo relações egocêntricas, imperialistas e, o pior – CIRCUNSTANCIAIS – ou não perceberam ainda que somos peças dentro de um jogo, ora úteis, ora inúteis, e só?
É cada um no seu posto querendo atenção e zelo quando acham conveniente, e logo mais peças fora do jogo quando as conveniências mudam... Somos apenas um bando de imbecis, tolos, sozinhos, carentes, e burros pra porra!!! Uma geração de loucos solitários construindo com esmero nossos castelos de solidão e perguntando: o que fizemos de errado????
O que fizemos de errado? Achamos que éramos a %$#@& do centro do mundo! Sentados em nossos tronos de ilusões, autoestimando uma droga de existência egoísta... Querendo ser amados, queridos, escutados, acolhidos em nossas fragilidades sem no entanto construir meios pra isso.
Que cuidado você tem dado às suas relações? Ainda não parou pra pensar que acaba, desvanece, entristece, se parte e parte tudo o que não tem zelo, tudo a que não se dedica cuidado?
Sei que já disse antes: “tá com saudades? Ligue! Quer saber notícias? Procure! Quer dar um abraço? Vá ao encontro! Não espere do outro. É você e o seu desejo... tem a ver com você e você mesmo... realize!!!”. É, já disse sim!!!! E não estou voltando atrás não!!! Mas, é muito claro, nessa fala tem clara uma relação sua com seu desejo; você está no comando; você decide como quer agir diante das suas necessidades do outro, se sozinho esperando ou realizando. Tudo bem! Mas isso não é relação!!!!!
 Com que zelo tem cuidado das suas relações? Que investimentos tem feito? Com que atenção tem cuidado das relações que te deram ou darão o cuidado que um dia, inevitavelmente, você vai precisar?
Agora vou dizer: “Quer comtemplar rosas? Regue! Quer um abraço? Estenda os braços! Quer carinho? Acaricie! Quer cuidado? Cuide também e bem! É SIMPLES ASSIM!!!
Estou cansado da avareza sentimental de alguns... Escondem sua solidão em avultadas relações porque não são capazes de cuidar das relações que tem. Vivem relações pontuais e circunstanciais. Egoístas, não conseguem enxergar nada que não suas próprias necessidades... Ah! Vão pra uma %$#@&!!!
Peço humildemente: AFASTEM-SE DE MIM!!!!
Mas não posso deixar de ressaltar o contrário; não posso deixar de sentir uma vontade imensa de sorrir ao lembrar de pessoas lindas em suas relações de troca, interação, cuidado, zelo. Obrigado por me fazerem digno de suas companhias, suas palavras, seu acolhimento. Vocês merecem o melhor da vida!!!
Como? Se os avarentos sentimentais não merecem também o melhor? Claro que não! CARECEM DO MELHOR DA VIDA! O que é bem diferente: MERECER e CARECER.
Se eu mereço ou careço? Não sei ao certo... Sei que, ao menos, tenho a certeza de não esperar de ninguém o que não for capaz de oferecer também. E descobri de mim mesmo que não sou gratuito sempre, que igual todo mundo, também espero zelo e cuidado dos que zelo e cuido e, se em algum momento fiz parecer diferente, estou desfazendo:
A partir de agora, terá parte de mim e parte na minha vida quem for capaz de fazer parte dela também. Como diz a canção: SEMPRE TEM A HORA QUE O CAMELO TEM SEDE. E tenho dito!!!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

PESSOAS, SEUS JARDINS SECRETOS E SUAS CERCAS ELÉTRICAS

Você já teve contato com pessoas marrentas, caladas, defensivas, autossuficientes, sabendo que era tudo mentira???? Kkkkkkkkkkk... Eu já!
Desconfio sempre de pessoas assim... não uma desconfiança negativa relativa a valores, não! É que aprendi que, quanto mais alto e reforçado o muro e suas cercas elétricas, mais há de valor a ser guardado ali dentro...
De minha parte, sempre fui travesso. Minha mãe nos comprava presentes e guardava no armário dela, eu sempre abria antes, via, fechava de novo, e esperava ela entregar pra poder revelar o delito. Kkkkkkk... Essas pessoas e suas cercas elétricas despertam o menino arteiro em mim. Fico procurando pequenas brechas nos seus muros para poder ver os jardins secretos que escondem, e como adoro seus jardins... Há sempre uma brecha, e se uma brecha há, há em mim estímulo pra procurá-la, e alegria por contemplá-la.
Usei a expressão “os jardins secretos que escondem”, mas me sinto impelido a fazer uma justa correção para “os jardins secretos que PRESERVAM”.
Todos nós nascemos sem muros... eles vão sendo construídos... tijolo a tijolo... porque a vida vai mostrando que algumas coisas em nós precisam ser preservadas... E talvez eu entenda, ou não, não sei!
Tenho comigo que cada um de nós tem um “tesourinho” de quinquilharias muito valiosas dentro. Seria como olhar os bolsos de um menino e, nas suas bolinhas de gude, notas de papel de cigarro, figurinhas e peças de um time de botão, encontrar seu tesouro. Quem pode duvidar ou mensurar o valor daquele tesouro? Dizer pra esse menino que aquilo não vale nada, com toda certeza do mundo, vai fazer ele chorar...
Eu sou esse menino... Acho que todos somos um pouco dele também. Não temos problemas em mostrar grandes feitos, grandes virtudes ou coisas de fato louváveis, porque temos a certeza de que isso será reconhecido. Nosso medo está justamente em mostrar as quinquilharias mega valiosas que guardamos nos bolsos meninos da nossa alma, por um motivo muito simples: medo de precisar chorar por não encontrar pessoas com olhos sensíveis para reconhecer o valor imenso que aquelas coisas, fatos, pessoas, rostos, sonhos, vontades, gestos, têm em si mesmas e pra nós. Eu sei como é, também já chorei por isso...
E mais: em nossos dias, dias da grandeza, do aparente, do visível, da valorização do forte, do audaz, do autossuficiente, a ideia de deixar à mostra nosso pequeno tesouro gera a ideia oposta de nos expormos frágeis, meninos, amantes, aprendizes... Abominamos essa ideia por medo de parecermos fracos e assim abrir espaço pra que alguém venha, não enxergue, e pise nas rosas dos jardins que cultivamos e onde adoramos ver os colibris, ou o pôr-do-sol dourando as folhas, sentados no balanço lá no canto, quando ninguém tá vendo, e podemos ser somente nós mesmos...
Talvez por isso eu entenda as pessoas, seus jardins secretos e suas cercas elétricas... Também já chorei por não terem visto, não terem notado, por terem pisado às flores que plantei e cuidei com tanto carinho e zelo... Respeito suas reservas, seus choques, seus muros altos... Mas é que sou menino de rua, não sei brincar sozinho; prefiro chorar porque pisaram o meu jardim a contemplá-lo dentro, sozinho... Sou menino de rua que pula muros e rouba flores... Tenho braços e pernas cheios de cicatrizes que só dizem do quanto adoro os seus jardins; já dando até choque de tantas descargas que já levei em suas cercas elétricas pra poder ao menos vê-los brincar sozinhos em seus jardins secretos com seus pequenos tesouros de essências...
Se ao chegarem à minha casa, encontrarem os muros derrubados, não é por pouco zelo por ela, é que assumi o risco de ser fraco, frágil, menino, e porque não se pula corda sozinho... E se pisarem nas minhas flores ou rirem dos meus tesouros, espero que saibam e possam correr mais do que eu, porque se eu pegar “couro come”!!! Kkkkkkkkkkkk...


Dedicado ao meu Pequeno e ao Baianinho, com seus muros altos, suas cercas elétricas e seus jardins os quais vivo procurando uma brecha pra contemplar...

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

DIGA 33!!!

Tô fazendo 33 anos, que massa!!! Kkkkkkk...
Antes de ontem desci os quatro andares de escada pulando de 3 em 3 degraus e, quando cheguei lá embaixo, me dei conta do fato e pensei: “Cara, te comporta, você vai fazer 33 anos!!!”, e ri muito!!! Kkkkkkkkkkk... Mas por que tenho que me comportar diferente? Perguntei pra mim mesmo e não obtive respostas, talvez porque elas não existam; talvez porque possíveis respostas tendessem a uma definição, e definições são burras demais, limitantes demais... e somos muito para ser limitados!!!
Olhando para esse ciclo de estações que se findou, parei e senti cada rosto, cada história que cruzou a minha... Senti-me extremamente grato ao acaso e às mais diversas situações, das boas as ruins, que nos fizeram tocar as vidas, e desejei um caminhão de felicidades a cada um deles. Mas um deles, em especial, me fez parar, por uma série de reservas que, por razões muito justas, faz de mim. Parei e desejei-lhe um bem muito real. E pronto! É da minha liberdade querer bem a quem eu quiser. Mas entre senti-lo apenas para mim e emancipá-lo, comunicá-lo, mesmo diante da possibilidade da possível incompreensão ou julgamento, mande-lhe uma mensagem.
Talvez soe como agressão ou ofensa, não sei... Mas achei limitante demais para mim ter meu desejo barrado por definições de mim que não necessariamente sou eu, e limitante demais também achar que o outro não possa compreendê-lo sendo também incrivelmente infinito. Então comuniquei! Porque achei que burro mesmo seria não comunicá-lo...
Dentre as várias coisas que aprendi de mim nesses 33 anos, uma delas é que vim com defeito de fábrica, negando-me irredutivelmente a me deixar prender por definições ou estereótipos. Aí lembrei de uma canção, de muitos anos atrás, que dizia:
“Contempla-me, Senhor, inteiramente despido. As cicatrizes que trago em minh’alma são marcas na minha busca por Ti, e fraturas na minha busca por mim mesmo... As paredes que me aprisionam também me protegem; quem dera pudessem proteger-me de mim mesmo. Pra que ter asas se não posso voar? -  sempre me fiz essa indagação. Asas são decretos de liberdade, em especial, no coração.”
Às vezes se faz difícil conter toda essa grandeza e liberdade dentro. Somos um invólucro apertado demais para nós mesmos. Vivo em vias de partir-me em milhares de pedaços e perder-me, se é que já me tive e que achado fui, se perder é a melhor e mais linda forma de achar...
Um amigo muito generoso e querido me ligou e disse: “Já pode ser crucificado!!!”, mas não! O Cristo já fez isso de uma vez e por todas!!! Cabe a mim agora levar a bom termo, levar a excelência a minha condição de gente, me gentificando, kkkkkkkkk, mais gente ficando, misturando o ancião conversador, a criança puladora de escadas e o homem hoje, com 33 anos, pronto para ser muito feliz...
Humildemente, peço ajuda para isso. Vocês todos, de longe e de perto. Os desconhecidos e os conhecidos também. AJUDEM-ME A CONSTRUIR ESSA HISTÓRIA COM TUDO O QUE TEMOS E PODEMOS DE MELHOR!!!

Beijos nas suas bocas com toda minha gratidão e gosto de eternidade...

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O avesso do avesso do avesso do avesso

Não sou feito de carne e ossos. Sou feito de palavras, imagens, música e sonhos. O resto é apenas uma cápsula, uma prisão que me obriga a estar em apenas um lugar quando eu queria estar em vários... Um dia tentei me conformar acreditando que estaria por aí, unido aos tantos com quem atei laços, mas não era real!!! Cada um é só um mesmo... Não sei porque me dói tanto aceitar isso??? Por que chorar por uma coisa tão óbvia???
Sinto-me como uma criança que descobre que Papai Noel não existe... como o eu lírico da canção que diz ”um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão, e se querer eles me deram a chave que abre essa prisão...”. Criei pra mim um mundo onde as pessoas são sempre boas, honestas, verdadeiras, me tranquei nele, e agora, fora dessa prisão, me sinto como um animal que passou a vida toda em cativeiro e não sabe se virar na selva, num habitat que devia ser-lhe natural...
Mas me nego a acreditar a aceitar!!! Me nego!!!
Como um passarinho que se lhe abrem a gaiola e ele resolve permanecer, porque dentro parece muito maior que lá fora. Fora do que acredito, as coisas me parecem muito apertadas... me sufoco...
Ouvi certa vez de um sábio que conseguiria, que saberia equilibrar, mas não sei não... Vivo metade da minha vida tentando equilibrar e a outra metade andando desequilibrado...
Dos sonhos que tenho quando durmo? São o recreio da minha alma... só servem pra me encantar e me levar onde eu não posso ir... Os sonhos meus mesmo são os que sonho acordado, em todo lugar por onde ando, olhando para as pessoa na rua e imaginando que histórias incríveis devem se esconder por trás daqueles passos apressados, mas eles nem sabem... parecem não se perceber vivendo... só vivem... como se possível apenas viver fosse...
Quem está certo? Quem está mentindo? Filosofar essas questões não me leva a lugar nenhum... Nunca me levou... Então, porque perder tempo com elas?
Acho que o melhor mesmo é dormir e, só por hoje, não me preocupar em se dormem bem todos a quem atei laços... Melhor passar a desejar bons sonhos ao mundo inteiro, sem caras definidas, sem raça, sem religião, sem gênero, sem nada...

Só dormir... Amém!

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Aos que AMARAM ATÉ PERDER A DIGNIDADE

“Amei aquele homem até perder a dignidade!”, essa foi a celebre frase da filósofa Srta. Pipa ao relatar sua vida afetiva em julho desse ano e que vem ecoando em minha alma confusa entre as duas verdades que encerra.
Adoro histórias, as amorosas me encantam sobremaneira. Acho incrível quando as pessoas contam, espantadas, sobre a capacidade de expansão e elasticidade dos seus limites, para além do que podiam imaginar sobre si mesmos, quando tocados pelo amor, quando movidos por essa energia de força inenarrável.
Talvez aí o “Q” da questão: SERÁ QUE AMARAM ATÉ PERDER A DIGNIDADE MESMO???
Eu, de minha parte, do clube dos românticos de carteirinha, adoro pensar que sim, mas sei que não...  E tenho todo prazer em compartilhar essa ideia:
O amor na verdade é uma projeção. Temos conosco mesmos uma identificação que nos faz, em circunstâncias normais, querer pra nós o bem, a felicidade, a alegria... Quando amamos DE VERDADE, agregamos outra identidade à nossa e, automaticamente, projetamos todo bem que nos queremos ao outro, criando mesmo a ideia de que somos felizes se o outro tá feliz, que nosso sorriso é mais alegre se o outro sorri, e a nossa felicidade só é completa se o outro está nela. Essa projeção cria um suposto esvaziamento de si. O “eucentrismo” é minimizado e cria-se um “outrocentrismo” afetivo.
Dessa dinâmica podem surgir duas realidades:
1 – O amor é recíproco – você ama, se esvazia, e se projeta em felicidade no outro, que também TE AMA, se esvazia, e se projeta em felicidade sobre você. Os supostos vazios são preenchidos pela presença da projeção do outro. Saímos de casa pra habitar o outro que vem e habita em nós e assim se estabelece uma relação intrínseca entre as subjetividades, sem nenhuma sensação de perda, mas de troca, partilha, comunhão.
2 – O amor não é recíproco – talvez seja essa a dinâmica mais comum ou mais popularizada. Você ama, se esvazia, e se projeta em felicidade no outro, que também SE AMA e, por se querer egoticamente demais, não se esvazia, e se projeta em felicidade sobre SI MESMO APENAS, e goza a ideia de ter dois, ele e você projetados em felicidade sobre ele mesmo. Assim, a sua projeção gerou um suposto vazio que não é preenchido pela participação do outro. Na partilha de quereres, você não é contemplado, e isso causa uma sensação dolorosa, aqui entendida como a perda da dignidade – tudo é para o outro e nada supostamente é pra você.
O outro se quer e tem o seu querer. Você quer o outro. Placar desigual: 2x0. Mas você não admite perder o campeonato. Você é amante, tá movido por essa força incrível, que é o amor, e acredita que é capaz de reverter esse placar, nem que seja na prorrogação. E você dá ainda mais de si, esvazia a dispensa de sua “dignidade” indo sempre além, empenhando sempre mais, vendo o final eminente da partida, mas sem admitir a possibilidade de perder, porque perder e inversamente proporcional ao amor, que só admite multiplicar.
Aqui retomamos um ponto já comentado: a capacidade de expansão e elasticidade dos limites. Pra vencer esse jogo perdido, você precisa ir muito além do que foi até então, precisa levar os seus limites à sua máxima extensão, e essa ampliação é maior quanto mais o cronometro indica o final da partida, ainda perdida em desvantagem pra você.
Mas o jogo acaba. Sempre chega a hora, quando se estabelece o JOGO, a BRINCADEIRA com os sentimentos, que o tempo acaba e aparece na tela o GAME OVER. Você perdeu! Lutou até as raias da loucura, mas perdeu. Jogava sozinho. E, supostamente perdedor, passa a gozar da ideia confusa do: AMEI ATÉ PERDER A DIGNIDADE.
Mas será?
Agora circulando pela engenharia e arquitetura, da vida e da alma, para qualquer obra de expansão, precisa-se mesmo esvazia a casa. Nossa casa é nossa alma. Pra levar a bom termo essa expansão de limites, de compreensões, saímos em direção ao outro enquanto em nós a casa vai sendo reformada, muros derrubados, espaços redimensionados. Expansão é aumento de tamanho. A alma está sendo redimensionada, reformada em amplidão.
O jogo terminou. Você perdeu. As luzes do estádio se apagaram. Exausto, você volta pra casa, tentando emendar a pouca ou quase nenhuma dignidade que você acha que lhe resta. Mas quando você chega em casa... Meu amigo, minha amiga, quando você chega em casa, dorme, recobra suas forças, e ACORDA, você descobre os incríveis espaços que todo esse aparente esvaziamento de dignidade lhe proporcionou, e você a redescobre ampliada duas, até três vezes mais.
Você pode até achar estranho, inicialmente, ocupar todo esse espaço de dignidade sozinho. Os móveis da alma agora estão pequenos demais para os espaços novos. É só o começo de mais uma reforma que precisa passar por várias áreas em você.
Depois de tudo prontinho. Você (nós) esta(remos) pronto(s) pra acolher um amor ainda maior. E cuidado para não ocupar todos os espaços – vai ser bom pra alguém que chegar notar que você deixou uns espaços na decoração reservados para o que o outro traz e agrega.
Agora pergunto: quem perdeu mesmo quando você amou até perder a dignidade?????? Kkkkkkkkkkkkkk... Adoro esse revanchismo não maldoso do amor: não perde quem deu, perde quem não partilhou...

ABENÇOADOS, mesmo sem o perceber, SÃO os que amam até perder a dignidade. Nunca mais serão os mesmos...

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

QUANDO DESCOBRI-ME TRAIDOR

Olhei de um lado, do outro, de costas e de frente, procurando meu melhor ângulo. Não consegui decidir... Inconformado, virei-me do avesso... E descobri-me em ignorância: estou em tudo! Sou todos esses lados e também seus reversos, e posso olhar de cada um desses ângulos sem, no entanto, me perder.
Dei emancipação às minhas partes e as lancei, cada uma em uma direção diferente, em busca dos encantos das pessoas e da vida, da música e da arte que se escondem nas rotinas aparentemente mais patéticas, e me enviavam todos os encantos por um fio afetivo invisível mais eficaz que as mais eficazes fibras óticas, nutrindo a minha matriz de melodia e encantamento.
Daqui, do lugar rotineiro onde me escondo, quase um Clark kent atrás de grandes óculos e uma pasta de professor, dei por exercitar-me amante, e que exercício profundo de descentralização. Num quase abrir mão da imortalidade pela substanciação concreta do amor, enquanto todas as minhas partes iam pelo mundo em busca do encantamento, aqui, de aparência rotineira e medíocre, decidi por agregar à minha vontade, outra; aos meus sonhos, outros; à minha ideia de realização, outra... E de quanto aprendizado isso me foi!!! Antes, apenas sabendo-me amante, agora sendo amante.
E como é maravilhosa a alma amante!!! Ela sacode-nos em nossas raízes e balança nossos ramos mais extensos como que para testar nosso eixo e nossa segurança; confunde a nossa com outra segurança; faz mesmo acreditar que nosso coração bate em outro corpo poético; faz coisas imensas parecerem pequenas e, também seu inverso, coisas pequenas parecerem grandes; garante aos nossos limites uma elasticidade tão grande que nos constrangemos em nossa própria compreensão de nós mesmos...
Se me gostava amador, muito mais agora me gosto amante...
Meio patético, eu sei. Mas até esse ser patético me agrada... rsrsrsrsrsrs... Inclusive quando confunde alguns tolos que me acreditam apenas sabedor do uso do coração como único músculo que pulsa; ignorantes eu sua parca visão, e também não teriam como saber, sei fazer bom uso de outros músculos que pulsam, mas, estão certos, prefiro fazer-lhes uso em conjunto: um pulso estimulando outro, e outros em cadeia pelo corpo e pela alma até um êxtase real que dura horas, dias, semanas, anacrônico a qualquer simples ato que o tenha dado origem.
Escutei, de várias bocas, em várias perspectivas, que todo amor tem suas traições e, embora monogâmico de carteirinha, me descobri traidor. Deixei crescer em meu peito uma paixão antiga, e passei a dedicar meus pensamentos, minha saudade, a ela, de forma a, ao menos nesse instante, não poder estar em qualquer relação sem sentir-me infeliz e traidor.
Para não ser incoerente com tudo o que apregoei, desatei todos os laços, despi-me dos sonhos, peguei de volta o meu coração poético implantando meio que a força em peito outro, e saí, limpo, leve, alegre como a muito não me sentia, em busca da minha antiga paixão. Chorei porque, tendo-a mandado longe e em tantos caminhos, não sabia nem por onde começar a procurá-la. Apenas sentei e chorei a dor da minha saudade... Não imaginava que a verdade dessa saudade pudesse ir tão longe e percorrer os milhares de quilômetros de linhas invisíveis que nos uniam e, uma a uma, todas as partes que deixei livres, foram voltando, e por excelência, para cada uma fiz festa, porque não conseguia deixar de fazê-la tamanho o encantamento que me causavam a cada chegada, pela beleza amadurecida adquirida nesse tempo de emancipação.


E fomos chegando e compondo... compondo e chegando... reabilitando o que se partiu e partiu, sem nunca deixar de ser um, todo. Fomos compondo e chegando, pondo a mesa para um café demorado de fim de tarde. Fomos chegando e compondo a melodia dos que se reencontram...
E os dias, as bobagenzinhas próprias de corações pueril-senis, ganharam nova cor e novo encantamento, agora contempladas por uma multiplicidade de sentidos (sensações e olhares) que, mesmo que tivesse infinitas vidas, abriria mão de todas elas, para levar a cabo, em excelência, apenas uma, essa, vivendo todas no encantamento e na exuberância quase imperceptível de uma só.


quinta-feira, 26 de junho de 2014

OLHARES XXII - Os perigos de uma pseudointensidade


           Vivemos em um tempo onde se fala muito em intensidade. Parece que "o tempo" está cada vez mais curto e que se é preciso viver tudo com muita dessa tal intensidade enquanto se pode, enquanto se tem tempo, enquanto se é jovem... Já aí um primeiro equívoco: viver com intensidade não tem a ver com idade, gênero ou condição social; não é privilégio dos jovens, como possa parecer.
Talvez, se trocássemos a palavra intensidade por paixão, e ao invés de dizer “viver com intensidade” disséssemos “viver com paixão”, essa noção de viver olhando para tudo com uma potencialidade de força ficasse melhor entendida. Olhar a vida e as coisas com paixão... É só lembrar o que sentimos quando estamos apaixonados: nos sentimos mais bonitos, mais alegres, olhamos para tudo com mais leveza, nos sentimos mais vivos, mais intensos... kkkkkkkkkk... Retornamos então à intensidade, e sobre ela lançaremos nosso olhar de hoje:
“Os perigos de uma pseudointensidade”.
Já vimos que a ideia de intensidade na vida que apregoamos tá muito relacionada à paixão, a uma postura mais encantada, e nem por isso fraca, sobre a vida e as coisas, uma vontade de viver mais e melhor. Mas nem pra todo mundo é assim! Para a maioria das pessoas, essa máxima da intensidade se aproxima muito da etimologia da palavra – em tensão. E para entender melhor isso precisaríamos de uma noção de física, força, tensão, noções essas que vou abrir mão e usar de um exemplo bem simples, do nosso dia-a-dia: alguém de vocês já colocou um varal em casa? É, desses de pendurar roupas mesmo, de plástico, bem populares? Não?! Kkkkkkkkk... Mas é fácil entender. Se colocamos o varal esticado demais, ele fica sujeito a uma tensão e, ao colocar as roupas, o peso delas aumenta essa tensão ultrapassando o que o varal consegue suportar e ele quebra, se parte... Por outro lado, se você usar o mesmo varal, só que o esticando menos, quando sob o peso da roupa, essa tensão não se aproxima tanto do máximo suportado, ele se expande, se adapta, acomoda, e não se parte.
Exemplo mamão com açúcar demais????? Vou provar que não!
Algumas pessoas vivem suas vidas e relações como que esticando varais; parecem que precisam testar a força e durabilidade das coisas, dos sonhos, das pessoas nas suas vidas... Esticam, esticam, forçam, submetem tudo á tensão que experimentam, vivem em tensão, e acham que isso é viver “in tensamente”. Para essa pessoas, nada dura e, principalmente, não duram as relações... E o que hoje não é relação????? Nos relacionamos conosco mesmos, bem ou mal, mas nos relacionamos; com os amigos, com a família, com os amores, com os companheiros de trabalho, com a cultura, com o planeta... para esses pseudointensos, todas essas relações precisam ser testadas, precisam ver até que ponto podem suportar, esticar, mas, como tudo tem um coeficiente de tensão suportável, de tanto tentar, de tanto esticar, quebram e partem... e SE partem... nada tem continuidade... parecem não ter aprendido que, sujeitando a certa tensão, mas sem chegar aos limites, deixando sempre uma margem de força, o varal que nos une às nossas relações pode durar mais, suportar mais...
Ainda falando sobre esse pseudointensos, suas vidas não tem continuidade, vão acumulando histórias partidas, relações despedaçadas, e acham que isso é viver bem, é viver muito... Se acham tão intensos, mas são apenas fracos, e na possibilidade da menor tensão que os toquem, rompem e partem, partem e somem, fazem malas e partem em busca de novas possibilidades de tensionar e romper, romper e novamente partir, se esconder, chorar...
Na minha humilde opinião, sabe como saber se uma pessoa é de fato intensa? Descubra quantos amigos verdadeiros ela tem, mas daqueles que você sabe que pode confiar mesmo, e descubra quanto tempo tem essas relações. Quanto mais duradouras forem, mas intensas são essas pessoas. Anos a fio tensionando, experimentando, escolhendo o melhor momento, sabendo até que pode se pode ir, quando se deve retornar, se aproximando muitas vezes da tensão máxima suportável a ponto de romper, mas empenhando ainda mais força para manter, não partir, permanecer... esses são intensos de fato!!!
Não sei em que grupo você se enquadra, se é que podemos falar em grupos. Às vezes, precisamos mesmo testar o limite, a tensão suportada, de algumas relações para não correr o risco, quando como se lava roupas e vai estende-las super satisfeito, e o varal não é de confiança, e as roupas terminam no chão. Mas não posso deixar de concluir esse olhar sem parafrasear o Mestre:

 Bem aventurados os intensos, que sabem esticar sem romper, que sabem intensificar sem tensos ficar, sem tensões desnecessárias causar; sem arrependimentos pra sentir nem mágoas pra guardar... Bem aventurados os que vivem a vida sob o sabor da paixão, que sabem manter em suas relações aquele viço primeiro que, indiferente a idade, olham para cada dia como uma possibilidade ímpar de se ser muito feliz... E bem aventurados ainda nós que nos perdemos e não sabemos fazer nada disso, mas que NUNCA deixaremos de tentar...

sexta-feira, 6 de junho de 2014

CAI NA VIDA DE PARAQUEDAS


Cai na vida de paraquedas...
Perdoem-me os céticos, mas Deus me trouxe a essa jornada com a única e exclusiva missão de ser feliz, e como foi e é exigente o exercício de levar a cabo esse mistério.
Na minha mochila de mantimentos, ao soltar-me nessa vida, colocou uma memória de elefante que me permite guardar tudo, do mais sublime ao mais fútil, e contemplar tudo com gratidão, para não apenas ser feliz, mas também saber-me feliz, e não tenho palavras para explicar mais que isso, mas sei que é assim... Colocou em meio peito dois corações, um senil e um pueril, porque assim, tão criança e tão velho, poderia viver todas as vidas, e as vivi e vivo.
Na mochila de mantimentos colocou também uma malinha de primeiros socorros cheinha de lágrimas, para lavar minh’alma quando dói; trezentos mil passos de dancinhas ridículas que danço quando estou sozinho, junto com a falta de bom senso para que possa rir muito de mim mesmo ao saber-me tão ridículo; notas e tons dissonantes para compor a melodia que embala cada dia; e centenas de milhares de sorrisos para conquistar pessoas capazes de olhar nos meus olhos e reconhecer quando preciso de um abraço...
Ah! Na minha mochila veio também um mapa com uma matriz norteadora – UMA PAIXÃO ENLOUQUECIDA POR GENTE. E que droga é essa que me faz tão bem e tão mal?
Adoro gente! Essa é uma das poucas certezas que carrego comigo. Seus sins e seus nãos; seus sonhos e pesadelos; quem de fato são e quem querem parecer ser; o que lhes faz felizes ou tristes... Tudo me interessa!!! Tudo pra mim tem um valor... cada olhar... toda e cada história...
Passei a minha vida encantado, olhando as pessoas... me alegrei muito com suas alegrias; chorei suas dores; aprendi com seus erros e me rejubilei com seus aprendizados... Diante desse fato, um amigo muito sensível perguntou: eram os sonhos dos outros, e os seus? Kkkkkkkk... De fato, eram os sonhos de outros, mas também muito meus que sonhei acordado ama-los e, sutilmente, faze-los desejar o melhor que podiam ser...
Já avencei muito... às vezes tanto que decidi voltar e refazer de outro jeito (Deus sabe)... é como se, para cada vida, existisse um poço com água suficiente para matar a sede de toda ela e eu tenha tido sede demais e bebido toda a minha água e agora precise cavar com as mãos mais profundo, mais profundo, mais profundo... até achar lençóis mais profundos e puros... e como tenho sede!!!
Rasguei o mapa mil vezes, mas ele está tão intrínseco em mim que, por mais que os caminhos mudem, sempre encontro a razão de ser da minha alma – GENTE.
Cheguei a uma encruzilhada, tem poucos dias... e aqui estou, sentado nela, e sentindo uma dor horrível, empenhando todas as minhas energias em conter uma bomba de vida latejando dentro de mim prestes a explodir a qualquer momento, e estou com medo... e admitir-me com medo é tão bom, me faz sentir tão gente quanto a gente que amo, e passo a amar a gente em mim que sou...
Mas não sei se vou conseguir conter tudo isso aqui dentro por muito tempo.
A vida em mim está prestes a recomeçar e peço aos que me conheceram até então não se assustarem ao encontrar um outro totalmente diferente – olhem nos meus olhos e reconhecerão o mesmo que convosco tomou café e tocou um violão desafinado...
E se me encontrar, é bom saber que QUERO TUDO!!! Quero o melhor de mim e de vocês!!! E se me oferecerem coisa qualquer, receberei, mas vou fazer birra e chorar deixando bem livre o menino em mim, porque quero o melhor... Quero TUDO!!! E não vou me conformar com NADA que não seja o TUDO de todos nós...
Se sentir saudades de mim – me liguem... Se quiserem chorar - tenho um ombro e muitas lágrimas para juntar as suas quando não tiver nada pra dizer nem cantar... E se o que quiserem for sorrir – estou cuidando do meu, mas ainda sei sorrir com os olhos... e se é só pra ficar juntos – demos as mãos e fiquemos em silêncio – não há razão de entendermos tudo sempre, apenas contemplar... e se a vontade for de enlouquecer apenas – estou pronto pra fazer dancinhas ridículas pela rua, correr na chuva, dar e receber milhares de beijos nos olhos e na testa e na boca... e não se acanhe de me deixar ver o carinho que nos une sendo você igual ou oposto a mim, a genitália que temos entre as pernas é o que menos importa quando se encontram duas subjetividades...
Aos que me conheceram, não se assustem se me encontrarem outro... É que a vida em mim está prestes a começar... e eu quero TUDO, do BOM ao MELHOR... e vou chorar, reclamar e fazer birra quando não conseguir... E levarei a cabo a minha missão de ser uma das pessoas mais felizes desse mundo... Disso eu não tenho nenhuma dúvida!!!!

https://www.youtube.com/watch?v=W6uTx_iJYKs&index=3&list=RD6fd_-92-IS0




sexta-feira, 23 de maio de 2014

VOCÊ SABE RECEBER PERDÃO?

Em toda a minha vida, sempre ouvi dizer da difícil tarefa de perdoar. Quando criança, não entendia muito... Essa coisa de aborrecimento durava sempre tão pouco que essa tal dificuldade não fazia sentido algum. Acho que mesmo tendo nascido senil, quarentão desde o berço, sempre vivi o paradoxo de manter num mesmo peito, sentados um no colo do outro, em uma profusão de identidades tão grande a ponto de não poder separá-los, o velho que sempre fui e a criança que sempre serei. É com base nisso que tento explicar que, mesmo reclamão e intolerante, muitas foram as vezes que me peguei achando comuns falhas intoleráveis e, assim, descobri de mim mesmo que sou um bom “perdoador”, se assim fica bem entendido.
Mas, por outro lado, o ato de ser perdoado que, no senso comum, sempre se mostrou tão tranquilo e fácil, se desvelou para mim como algo extremamente complexo e de uma extrema responsabilidade. Como? Vou tentar explicar:
Algumas pessoas fazem do ato de serem perdoadas um exercício reflexivo de apreciação da desavença que produziu a tensão e a mal querência que fez ser necessário o perdão. Eita bexiga! Quase não chego ao fim dessa frase... Deixa tentar de novo: Quando são perdoadas, algumas pessoas, sensatas, olham para o problema que gerou a tensão, reflete a ação de cada parte, e faz daquele problema um trampolim para o acerto. Se sentem gratas pela nova chance, porque o perdão é uma nova chance para a manutenção da relação em risco, e seguem ainda mais seguras, mais resolutas, na certeza de que, ao menos não intencionalmente, naquela mesma pedra, não mais tropeçarão.
Ao menos assim é o que se espera... é o que parece mais sensato... é o que produz mais efeitos positivos...
Mas é sempre assim? Claro que não!
Descobri, nesse exercício extremamente prazeroso e doloroso de olhar a vida, que uma quantidade consideravelmente grande de pessoas costuma fazer péssimo uso do perdão que recebem. Como? Deixa eu tentar explicar também.
Algumas pessoas tem de si uma visão tão autocêntrica que, em primeira mão, acham que, obrigatoriamente, precisam ser perdoados. Têm para consigo mesmos uma visão tão misericordiosa que, cometendo erros, quando diante da possibilidade de não serem perdoados, sentem-se ofendidas, injustiçadas, não importando o mal que possam ter feito a outrem. Esse é o principal traço da personalidade dessas pessoas: uma concentração tão absurda em si mesma, no seu estado emocional, que se colocar no lugar do outro para avaliar consequências se faz uma tarefa quase impossível.
Mas os danos desse tipo de mal recebedores de perdão ainda não estão esclarecidos. Tudo bem! Choram, reclama injustiça, até admitem o erro (levando mesmo a fazer achar que refletiram sobre) e, na maioria das vezes, acabam recebendo perdão. No caso anterior, o ideal, falamos do perdão como a chance de fazer refletir e não incidir novamente no mesmo erro, não foi? Com esse tipo em específico não é assim. Não sei que “tiuti” da no juízo que o perdão se faz parâmetro para errar mais.
Já se acham, a todo tempo, merecedores de perdão. Ao ser perdoados, confirmam isso, e acreditam que acharam o caminho, que quem perdoou uma vez, vai perdoar de novo e, para decepção, se não da humanidade inteira mas minha, voltam a repetir o mesmo erro que já foi colocado em cheque antes, só que com um grau maior de má fé – na primeira vez talvez não tivessem noção dos possíveis danos às pessoas ofendidas, mas, nas vezes seguintes, essa ação danosa se faz totalmente consciente.
Pobres de nós que corremos esse risco... e digo de nós, porque, gente como toda a gente, não vou cuspir pra cima e ver cair na careca, sujeito a mesma condição confusa de ser gente, humano, em construção.
Por isso vivo a refletir e, embora isso produza uma profunda dor na alma quase sempre, sofre-se com um considerável gozo, o de saber-se construindo, moldando; não mais alguém fadado a nascer, crescer, trabalhar, trabalhar, trabalhar mais um pouco, reproduzir, trabalhar, trabalhar e morrer; o gozo de saber, não aonde ir, mas como quem pretende ser ao chegar.
Para finalizar, como sempre o desejo profundo, de que o mundo se encha de excelentes perdoadores mas, ainda mais, que se multipliquem as pessoas com zelo por suas relações humanas, as mais diversas, de forma a fazer crescer a capacidade de se colocar no lugar do outro, antecipar o que doe e evitar o corte, minimizando a necessidade de se pedir perdão. Com mais “perdoadores” e menos “pedidores de perdão” teríamos uma equação bem mais ajustada nessa seara de oferta e procura.

Como estímulo, fica essa arte que me encantou essa semana:

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

COMO RECRIAR O AMOR?

No auge dos meus 32 anos, me sinto seguro o suficiente para afirmar ter aprendido que o amor não é uma forma continua e uniforme. Ele cresce, decresce, se alegra e entristece, é criança e amadurece, envelhece em dias e até morre se não lhe damos motivos para permanecer jovem e viçoso.
Mas o amor não é um produto numa prateleira com prazo de validade que, ao ser atingido, deixa-o inapropriado para o consumo, não! Ele tem prazos de validade sim, é fato, mas, por outro lado, tem um poder incrível de regeneração capaz de ampliar o prazo de validade para uma outra data mais adiante. Há pessoas que são tão habilidosas nisso de regenerar o amor, que são capazes de ir ampliando seu prazo de validade para uma vida toda, de etapa em etapa.
E como saber que esse prazo de validade está prestes a se vencer? Os sinais são bem comuns e simples: o brilho no olhar se perde e dá lugar às conveniências, sejam elas da segurança, da valorização da história, da gratidão, do costume, da acomodação... O olhar muda! Próximo da “data de fabricação” esse olhar é para o todo, dá significação ao conjunto, vale de si, para si e por si mesmo. Quando se aproxima do prazo de validade, esse olhar é comparativo, foca uma barriga que cresceu ou um peito que cedeu à inevitável ação da gravidade; os outros vão sempre estar melhores, mais em forma, com os melhores padrões de diversão, com as casas mais harmoniosas e badaladas, e assim, aos poucos, aquele olhar que antes olhava para dentro passa a só encontrar significação, prazer e beleza, da janela pra fora.
Parte essencialmente gozada disso tudo é que esse olhar que mudamos sai de dentro e vai para fora sem nunca vislumbrar espelhos. Mudamos do olhar contemplativo para o comparativo sem fazer de nós exata apreciação de que, também nós, deixamos crescer a barriga, também sofremos a ação da gravidade, também vemos ampliar o número de cabelos brancos, mas o outro, apenas o outro, é quem decaiu.
Na verdade, ao falarmos de validades, inevitavelmente falamos de tempo e, como já dizia o Pe. Antônio Vieira no Brasil colonial, o tempo tira a novidade das coisas, as gasta, e talvez por isso o amor, habilidoso como ele só na arte de se manter, estabelece para si mesmo prazos de validade, momentos de reflexão que nos colocam diante desse embotamento das cores para decidir recriá-lo e estabelecer para mais adiante o prazo de validade garantindo assim mais noites de amor, mais risos, mais suspiros... , ou não.
Mas como recriar o amor?
Olhar para trás não é o melhor caminho porque, ao vermos o que foi bom, enxergamos também os pesos, dores e cansaços que estabeleceram a validade do processo. Talvez o que faça ampliar a validade do amor valer a pena seja justamente o risco, a dúvida, a novidade, o inesperado de possibilidades que essa ampliação abre. Igual não vai ser mais porque as fases se sucedem e se excluem. Igual não dá mais para ser, porque, o sendo, não garantiu a durabilidade do processo. A abertura à novidade que a ampliação do prazo de validade do amor causa talvez seja a condição, em si mesma, para essa ação recriadora.
Outro dia cantei para um amigo: “que venha o novo: novo sorriso, nova dor. Eu quero mais é viver um novo amor”. Mas hoje acho poder parafrasear a mim mesmo cantando: “que venha o novo: novo sorriso, nova dor. Talvez eu possa viver tudo NO MESMO AMOR”.
Um ósculo festivo nos que sabem recriar o amor com criatividade no desejo de que essa força que de vós emana me ensine a aprender a recriar os meus também.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

teraPIA


Aqui em casa, de galhofas, costumo dizer que a PIA cheinha de pratos é sempre a melhor teraPIA... kkkkkkkkkkkk... Ô diabos que não fica limpa quase nunca é pia!!! Por isso, a teraPIA é incessante...
De fato, para mim não há melhor terapia que conversar. Quem me conhece sabe que falo pelos cotovelos (como diz o amigo Fábio Lima/Cobra: “sabemos falar de nós”). Mas, da mesma forma que sei e adoro falar, também sei e adoro calar, em igual medida. Confesso mesmo que às vezes falo mais quando calo e quando falo as pessoas parecem surdas. Mas enfim: hoje é dia de falar...
Odiei crescer!
Detestei ter de ir esvaziando meus bolsos dos sonhos para dar espaço à contas e grana pra pagar contas. Esse é o resumo da vida adulta: fazer contas x trabalhar x pagar contas; num ciclo ininterrupto.
Senti muitas saudades de mim mesmo, do cara bacana que um dia achei que fui, com os bolsos cheios de ideias e arte, e o coração cheio de fé e amigos... Senti muitas saudades de mim mesmo, acredite... Aquelas saudades doloridas de ter que deixar partir o que já não podia permanecer...
E não é que ser adulto seja difícil, não! Pra ser sincero, já conhecia essa experiência desde muito antes. O complicado de ser adulto de fato é que consome muito tempo. Gasta um tempo, para mim sempre sagrado, de sonhar, de ser feliz, mas com tempo de saber-se feliz, o que triplica a sensação de felicidade.
Foram dois anos e meio de transição: casa por montar; perfil profissional a definir; contas a fazer; outras a pagar; correria; ponte rodoviária; duas casas para amar – uma aqui sozinho habito e outra a que minha alma habita junto à minha família; poucos amigos; muitos pratos pra lavar... kkkkkkkkkkkkkk... E uma angústia enorme por não sobrar tempo para ler um livro, ver um filme, dormir dignamente de cabeça tranquila, jogar conversa fora com os amigos, viajar, fazer planos – POR POUCO NÃO PEÇO PINICO!!! KKKKKKKKKKK...
Mas passou, como tudo que passa...
A casa tá montada, no mais amplo sentido da palavra: a casa de fora e a casa de dentro. Se bem que sempre falta alguma coisa; coisas antigas se estragam e precisam ser renovadas (tanto na de dentro como na de fora). Aceitar esse (in)fluxo me colocou de volta na rota.
Comecei por deixar a casa de fora 3 dias sem arrumar e me permiti ver um filme, dormir a tarde, deixar pratos de um dia para outro na famosa PIA, e sonhar... tinha deixado outra casa, mais importante, a de dentro, bagunçada por dois anos, que mal faria deixar essa de fora por 3 dias e sonhar? Vi filmes, escutei música, toquei violão, falei ao telefone, e percebi que estou no comando e não sou esse avatar macabro preso no sistema capitalista repetindo padrões estereotipados.  
Se consegui reaver o menino mim mesmo de quem sentia saudades? Não! Ele cresceu! Experimentou como menino o que se lhe oferecia ao menino, e me ensinou muito com isso. Hoje sou um homem, pronto para experimentar o que se me oferta ao homem que sou.
Kkkkkkkkk... Coisa simples, mas fato de ser adulto numa gaiola de 4º andar que me permite ver o melhor da cidade é andar nu pela casa: fiz como criança, sendo criança, e com a dinâmica de simplicidade própria da criança, e agora volto a fazer longe dos olhos de todos, mas numa dinâmica própria dos dias que tenho e da vida que levo...
E esse nu é muito simbólico... Próprio de uma alma avessa a fama e publicidades fingidas e adepta do revelar-se... o que faço aqui hoje, depois de tantos dias de silêncio...
Espero não ser ao menos um momento de sanidade em meio a loucura dos dias, espero perpetuar esse estado de clareza e manter esse canal de comunicação aberto mãos uma vez; mas se não conseguir, se, ao amanhecer, voltar a olhar com olhos míopes, terei aproveitado ao máximo esse insight de autoafirmação...
Beijo a quem interessar ser beijado...

OLHARES XXI - Quando a felicidade se faz parâmetro para a infelicidade


Costumava dizer que duas coisas nos estragam: tristeza demais e felicidade demais.
Como assim? Deixa eu tentar explicar: o excesso de tristeza produz em nós uma espécie de barreira de defesa; quando conhecemos tristeza em demasia, tudo em nós se move, ao invés de para a produção da felicidade, no intuito de evitar a dor e a tristeza. Pessoas muito sofridas costumam desconhecer o caminho da felicidade, porque ela deixa de ser a meta; a meta passa a ser o “não sofrimento”, e talvez nisso a nova forma de felicidade conhecida e desejada.
Acho que, até aqui, é fácil entender, né? Mas tem o inverso, extremado como esse: ser feliz demais é tão complicado quanto ser triste demais. Por quê? Imagine você que só conhece de doce rapadura, certo? Sempre que ela pensa em doce, o que lhe vem à mente? RAPADURA! KKKKKKKK... Se vier algo melhor que isso, é puro lucro, porque seu paladar queria apenas o doce bruto da rapadura e com ele já estaria satisfeito. Mas, de repente, numa dessas idas e vindas da vida, a essa pessoa é oferecido o mais saboroso manjar... Imaginou a danação? Sempre que pensar em doce, sua mente o remeterá ao doce mais saboroso que já provou - o manjar. Mas manjar não é um doce assim tão comum, daí, tudo que lhe for oferecido vai parecer insuficiente, apenas um “pelo menos”. Pode até satisfazer, mas uma brecha, uma falta vai haver.
Acho que assim ficou melhor explicado e feita a base para nosso olhar XXI: Quando a felicidade se faz parâmetro para a infelicidade.
Minimamente, apenas pela explanação anterior, podemos deduzir que ser felizes demais nalgum momento da vida pode nos trazer infelicidade se aquele padrão não é atingido noutro, mas o olhar que aqui proponho nos remete para uma dimensão ainda mais singular.
Por exemplo: Você vive uma relação afetiva incrível; ela acaba; mas torna-se referência de felicidade, e você passa a tentar repetir ou até superar aquele padrão de felicidade nas relações posteriores, e segue tentando... Se não consegue, a razão age generosa lhe mostrando o quanto as pessoas são diferentes, o quanto os tempos são outros, o quanto você pode inovar por ser uma nova relação... e assim por diante...
Mas quando o parâmetro para comparação, de um esplendor de felicidade, está na própria relação que você está vivendo?
As pessoas são as mesmas; os sentimentos “os mesmos”; a rotina a mesma... Nisso um nó para a razão! O parâmetro para comparação dessa relação não é outra relação, é a própria relação. Você conhece os mecanismos de acesso á felicidade nessa relação, porque já o experimentou, mas, de repente, parece não saber acessá-lo mais. Você tenta, a todo custo, retomar aquele padrão de felicidade, sem, no entanto, conseguir, e a alma se constrange. A felicidade aqui torna-se condição para a infelicidade.É como desejar comer o manjar, ter o manjar na geladeira, e ele não ter o mesmo gosto. Mas como se é o mesmo?
Será que é o mesmo??????
Com certeza não! Talvez nessa certeza confusa, de que sendo o mesmo não é o mesmo, esteja a chave que abre essa porta. Mesmo sendo as mesmas pessoas envolvidas na relação, essa relação, na verdade, são relações, são novas formas de se experimentar que vão assinalando os novos tempos que se vai vivendo. Quanto mais tempo se vai vivendo junto, mas relações se vai vivendo, mas dinâmicas numa mesma relação se vai experimentando, mesmo sem perceber, mesmo achando estar se vivendo a mesma relação e, para cada nova dinâmica, uma ideia sensível de felicidade diferente.
Palavras aparentemente fáceis, mas na prática não é tão simples assim, eu sei!
Mas talvez lançar olhar sobre essa complexa dinâmica nos possibilite desejar, nas nossas relações, não a manutenção de um parâmetro fixo de felicidade, mas o exercício das inúmeras felicidades, diferentes, algumas novas, outras já conhecidas, outras mais intensas, outras suaves, mas diferentes, de forma que a felicidade deixe de ser parâmetro para a infelicidade, mas para o desejo de ser feliz ainda mais.
Que ser felizes seja a meta, o projeto, a empresa, e a rotina mais rotineira e repetitiva que possamos experimentar: todos os dias, dias de ser felizes.

Mais um, entre tantos já feitos nessa página, brinde à felicidade!!!!!!

terça-feira, 26 de março de 2013

OLHARES XX – "Páscoa???"



            Puxa vida!!! Essa Páscoa (2013) nos veio bem intensa: um novo Papa, que coexiste junto a um outro emérito; problemas econômicos na antes inoxidável Europa; um assessor de direitos humanos no Brasil mulato e de alisamento e chapinha no cabelo, mas declaradamente preconceituoso com raça e homofóbico; a França, berço da cultura humanista e dos direitos humanos marchando contra esses mesmos direitos.
Sejamos todos muito bem vindos a pós-modernidade!!!
Acho muito cabido essa prévia reflexão, vivemos uma troca constante entre fazer a cultura e “ser feitos” por ela, e isso não se dá ao acaso, está intrinsecamente ligado ao momento histórico, às respostas que precisamos dar imediatas aos ares do tempo que nos toca – Não existe cultura desvinculada do seu momento histórico nem tão pouco pessoas desvinculadas da cultura, muito menos culturas iguais.
Desejei um “boas vindas à pós-modernidade” e o fiz porque, em tudo que tenho refletido, estudado, tentado sentir sobre esse tempo, tento situar nesse contexto – não podemos pensar o atual com o olhar do antigo (embora o antigo olhar ainda tenha muito peso em nós). Mas afinal, o que tem esse tal tempo pós-moderno? Para responder, não vou entrar em elucubrações científicas, apenas apelar pra sua sensibilidade: há 30 anos atrás, telefonia móvel eram propostas de filme de ficção científica – na atualidade não nos vemos sem os celulares; nos comunicamos incessantemente sobre tudo e para tudo e, sem menos confusão mental, nos pegamos imaginando como era quando não os tínhamos (já pensou nisso? Já fez o exercício de, num momento onde o celular foi bem útil na resolução de um problema, imaginar o tempo, não distante, onde não os tínhamos????); E a internet??? Gente, me pego pensando quando, há bem pouco tempo, enciclopédias caríssimas enfeitavam as salas ostentando um “Q” de “aqui tem uma família culta” e, pobres de nós, passávamos um tempão procurando algum assunto específico e fazendo manuscritos para entregar na escola, fechados e condicionados a uma realidade extremamente imediata a nós, alheios a um mundo que parecia enorme e distante de nós e para o qual parecíamos indiferentes – um mundo de figurinhas na enciclopédia). Não só! Pela internet nos comunicamos, fazemos compras, pagamos contas, acessamos informações por todo o mundo e nos conectamos a esse mundo quando decidimos emitir nossa opinião (como aqui fazemos). Em resumo, tivemos mais desenvolvimento tecnológico nas últimas quatro décadas que em todos os séculos de cultura humana anteriores. Produzimos essa cultura de informações express e somos produzidos por ela, mas não com poucos danos e poucas tensões. Somos muito resistentes a mudanças!!! Produzimos mudanças constantes que nos obrigam a mudar junto, mas somos temerosos em mudar. A queda de barreiras territoriais promovida pela internet abriu nossas culturas para uma apreciação coletiva e algumas questões, latentes em todas elas, passaram a circular e exigir reflexão sendo, algumas das mais imediatas, os direitos humanos e as novas configurações de gênero e as respectivas famílias produzidas por elas.
Esse meio cultural aparentemente hostil, pela sua flexibilidade, empurrou, ao mesmo tempo que para o mundo como um todo, cada um de nós para dentro de nós mesmos numa atitude inconsciente de autopreservação. A antiga cultura, com papeis bem estabelecidos, com o aparente conforto dessa linha quase reta a ser galgada, sede lugar a uma nova onde não há certeza alguma a não ser a de que as coisas continuaram mudando e, com as mudanças, precisamos dar respostas; e essas respostas são extremamente pessoais. Nesse ponto, no ponto da extrema pessoalidade em que vivemos, experimentamos um mundo de coisas não mais sujeitas a uma apreciação por olhos moldados e adestrados para um jeito específico de olhar, mas de olhar curioso, criativo e, esse olhar egoísta, produz uma humanidade nova, que exige ser vista e reconhecida nas suas variadas formas de construir sua felicidade. Nessa perspectiva, o antigo ditame resumido em: “homem de bem, mulher de bem, cafajeste, puta, veado e sapatão”, sede lugar a uma gama imensa, e não passível de catalogação, de possibilidades de ser no mundo. Mas esse ser complexo, pós-moderno, sem catalogação, não nasceu de chocadeira, veio ao mundo inserido numa família e também vai constituir família. Nesse ponto mexe-se no eixo sustentador de uma cultura milenar e de todas as instituições normatizadoras que balizaram nosso pensamento até aqui.
Esse é, em linhas gerais, o contexto. Vamos agora aos nossos pontos de reflexão de páscoa:
Um papa renunciou!!! Que maravilha!!! É ou não é esse papa um homem pós-moderno??? Claro que sim! Ao ver deixar-lhe a força física necessária para o cumprimento necessário do seu ministério, quebrando um protocolo medieval, deixa o “trono” pedindo que ele seja ocupado por alguém que possa dar respostas mais apropriadas as necessidades e ao tempo. Um lindo exercício de humanidade, não foi? Os mais céticos podem dizer – “foi necessidade!” – mas onde mais se revela nossa humanidade que não nas necessidades e exigências do tempo? Enfim! Depois de breve burburinho: “habamos papam”. Quem é? FRANCISCO, um latino americano com nome escolhido em alusão a Francisco de Assis, um grande reformador do pensamento medieval que propôs um olhar de igreja e do mundo para os pobres, um burguês que exercitou sua fé no abraço ao objeto de maior preconceito da época “a lepra”. Devemos esperar que o Francisco, contemporâneo nosso, também quebre preconceitos e se aproxime de quem os sofre??? Sim! E não!
Não sei se vocês perceberam, mas nunca tivemos tanta expectativa no que diz respeito a escolha de um papa, especialmente num período de suposta perda de influência da Igreja católica. Mas porque o esperamos tanto??? Porque esperamos ver suas posturas para nela nos espelharmos. Perdidos, entre tantas realidades nos tocando todo o tempo, somos saudosos da velha  “viseira de burro” que nos conduzia sempre e apenas para frente e para um lugar específico.
Mas devemos esperar que o papa toque, acolha, esse novo jeito de ser humanidade na pós-modernidade. Não! Não devemos criar expectativas! Estamos no meio de uma revolução e nenhum de nós está ainda assim tão apropriado do contexto para desejar posturas definitivas. Estamos em processo; estamos no olho do furacão; embora a complexidade da condição humana seja antiga e estivesse apenas esperando aprender a falar de si, o dito até agora ainda não é inteligível o suficiente para romper os preconceitos. Devemos esperar do papa, assim como em toda a sociedade, um saudosismo da família tradicional, aquela com papeis bem definidos e que deu as respostas necessárias no seu tempo específico. Ela não vai deixar de existir! E que bom que não vai! Não queremos abrir mão dela também! Devemos desejar que ela coexista, ensinando as famílias novas de sua sabedoria. O tempo não propõe trocas, propõe anexos. Vamos assistir e, se sábios, sem tensões, a retomada da identidade da família tradicional, que precisa se reencontrar entre o antigo e o novo; esse retomar identitário da família tradicional é quem vai abrir portas para o novo porque é no seio dessa família tradicional que é gerada a nova humanidade com toda a sua complexidade. Quando a “NOVA FAMILIA TRADICIONAL” acolher seus filhos em sua complexidade, teremos campo fecundo para discutir as novas famílias.
Mas o que devemos esperar do papa Francisco então? No mínimo, que ele olhe para os membros da Igreja, reconheça neles o germe da pós-modernidade, olhe neles para além da uniformidade da liturgia e dos hábitos, para a singularidade e complexidade e criatividade ali escondidos e que precisa fecundar a Igreja de um novo ânimo. Um olhar medieval numa estrutura medieval para acolher pensamentos pós-modernos é a receita perfeita para distúrbios internos. Se o papa cuidar bem da singularidade dos que fazem a Igreja católica, teremos lideres religiosos mais bem resolvidos, mais felizes e mais encontrados em sua vocação e significação no mundo, mais um excelente campo para se discutir a nova humanidade.
A Europa sempre ditou regra para o mundo. O suposto berço da civilização, com suas culturas já experimentadas e enraizadas, suas economias fortes e seu povo cheio de si. Vivemos tempos mutantes, falamos sobre isso na introdução desse olhar. Nesses novos tempos nada é definitivo, tudo está posto a mudar a qualquer momento e, com a Europa, não foi diferente. Abalaram-se as economias; dinheiro mexe no eixo de segurança de vida das pessoas; abalaram-se as antigas estruturas que faziam aquele povo tão cheio de si. Tanto que, não com menos propriedade, o novo para é latino-americano – sede-se um dos mais respeitados “tronos” para alguém de uma cultura de dominados que tende a suplantar seus dominadores. Novos tempos, minha gente!!!
E a macha da França a favor da família tradicional e contra o casamento homossexual???
Logo a França? Me perguntei. Eu sempre admirei a França por ser esse sinalizador da cultura dos direitos humanos e, de repente, é justamente de lá que vem a macha do retrocesso? Mas não tem retrocesso nenhum nisso! A Europa está abalada pela série de intempéries que tem sofrido. Aquele povo era hegemônico justamente num tempo onde as estruturas tradicionais ditavam o rumo dos tempos. Nessa perspectiva, não obstante assistiremos esse e mais outra série de acontecimentos aparentemente retrógrados que nada mais são que a tentativa desesperada desse povo de fazer voltar as antigas estruturas que aparentemente sustentavam sua hegemonia como se, fazendo voltar o velho pudessem, com ele, voltar ao topo. Mas, não esqueçamos, eles tem direito de tentar, tem direito de querer o que quiserem querer. Não podemos nos dizer pessoas abertas ao novo se formos intolerantes ao direito do outro escolher o que, escolhendo, o faz por acreditar que vai ser melhor pra si e, como já vimos, não há mal nenhum em se querer que a família seja a base e o sustentáculo da nossa cultura e da nossa sociedade.
E, em se falando de direitos humanos, tivemos, aqui no Brasil, a escolha catastrófica de Feliciano para a secretaria dos direitos humanos. Seria cômico se não fosse trágico! Mas gente, foi um dos mais recentes e mais significativos propulsores de uma tomada pública de posição que vimos nos últimos tempos dentro da esfera pública do Brasil. Assistimos anualmente há 13 anos milhões de pessoas ligando para decidir quem fica ou sai do big brother e, por essa escolha arbitrária, tivemos a alegria de ver acontecer uma tomada de posicionamento democrática de centenas de pessoas, nas redes sociais, querendo fazer públicas suas posturas a esse respeito – não chegamos aos milhões do big brother, mas já foi um excelente começo. Dentre os manifestos mais sagazes e inteligentes, li um, atribuído a Rita Le, que dizia mais ou menos assim: esse homem é mulato, não é? E tem preconceito contra afrodescendentes? E esse cabelo alisado e com chapinha? Hummmmmm... Também é homofóbico? Kkkkkkkkkkkk... Pobre Feliciano, um homem pós-moderno, mulato, metrossexual que, para ter sua parcela no comércio crescente da fé no Brasil, emitiu seu discurso sem base e sem fundamento de separatismo e preconceito, se vê agora tendo de desdizer o dito para garantir seu lugar num comércio bem mais valoroso na política brasileira. Esse homem não me representa também! Não pelas palavras infames – foram interesseiras e pontuais, cabidas dentro de uma cultura especifica para garantir um bem específico; Não me representa justamente pela falta de um posicionamento real, seguro, indiferente a benefícios pessoais.
Caramba! Pra quem não gosta de ler, essa postagem ultrapassou todos os limites, kkkkkkk...
Mas, depois de tudo isso, cabe-nos agora perguntar: ONDE ESTÁ JESUS EM TUDO ISSO?
Está na Igreja católica? Sim, está! Na macha da família? Também! Em Feliciano? Claro que sim!
JESUS ESTÁ ONDE SEMPRE ESTEVE! Indiferente às vicissitudes dos tempos? Nunca! Ao contrário: respeitoso a condição suprema do livre arbítrio humano, deixando que nós construamos nosso tempo, façamos nossa história.
JESUS ESTÁ ONDE SEMPRE ESTEVE! Ele não muda! As pessoas mudam! Os tempos mudam! Houve um tempo em que a Igreja defendia o preconceito racial pregando que negros não tinham alma. Isso nada tinha a ver com Jesus, era ditame social, humano. Hoje defende a igualdade de raças. Não foi Jesus quem mudou, o mundo é que mudou – e continua mudando.
JESUS ESTÁ ONDE SEMPRE ESTEVE! E é, certamente, a imagem mais apropriada a nos guiar nesses tempos de confusão e dúvidas: comeu com publicanos, perdoou adúlteras, olhou com amor para fariseus, acolheu no reino recém inaugurado por seu sacrifício um ladrão. Ele vivia a máxima que resume sua pregação e é apropriada a todo e qualquer tempo instaurado pela raça humana: AMA A DEUS E AMA O TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO!
Nessa máxima, condição indelével para o fim do preconceito, para o respeito e acolhimento a qualquer diferença, para o fim da fome e da miséria, para a confraternização entre os povos, e para a tão sonhada PAZ.
Ah! Termino esse texto muito emocionado. Como foi bom reservar esse tempo em meio a essa correria toda para pensar a páscoa com vocês. Na etimologia da palavra páscoa temos – passagem, e agregamos o conceito – libertação. Vivemos mais que uma data comemorativa, vivemos um tempo de páscoa, de passagem, de mudança, de novas formas de ser no mundo. Que saibamos fazer essa transição mais leves, deixando para trás antigos pesos que já não correspondem a quem e como somos humanidade hoje, libertos de ideias separatistas... E que seja um o lema supremo  a nortear nossa passagem: AMA A DEUS E AMA O TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO!
Uma excelente, reflexiva, sentida, humana, páscoa para todos!!!

Rennan Barros
OBS: Acho essa uma das imagens mais apropriadas do Cristo Ressuscitado...