sexta-feira, 23 de maio de 2014

VOCÊ SABE RECEBER PERDÃO?

Em toda a minha vida, sempre ouvi dizer da difícil tarefa de perdoar. Quando criança, não entendia muito... Essa coisa de aborrecimento durava sempre tão pouco que essa tal dificuldade não fazia sentido algum. Acho que mesmo tendo nascido senil, quarentão desde o berço, sempre vivi o paradoxo de manter num mesmo peito, sentados um no colo do outro, em uma profusão de identidades tão grande a ponto de não poder separá-los, o velho que sempre fui e a criança que sempre serei. É com base nisso que tento explicar que, mesmo reclamão e intolerante, muitas foram as vezes que me peguei achando comuns falhas intoleráveis e, assim, descobri de mim mesmo que sou um bom “perdoador”, se assim fica bem entendido.
Mas, por outro lado, o ato de ser perdoado que, no senso comum, sempre se mostrou tão tranquilo e fácil, se desvelou para mim como algo extremamente complexo e de uma extrema responsabilidade. Como? Vou tentar explicar:
Algumas pessoas fazem do ato de serem perdoadas um exercício reflexivo de apreciação da desavença que produziu a tensão e a mal querência que fez ser necessário o perdão. Eita bexiga! Quase não chego ao fim dessa frase... Deixa tentar de novo: Quando são perdoadas, algumas pessoas, sensatas, olham para o problema que gerou a tensão, reflete a ação de cada parte, e faz daquele problema um trampolim para o acerto. Se sentem gratas pela nova chance, porque o perdão é uma nova chance para a manutenção da relação em risco, e seguem ainda mais seguras, mais resolutas, na certeza de que, ao menos não intencionalmente, naquela mesma pedra, não mais tropeçarão.
Ao menos assim é o que se espera... é o que parece mais sensato... é o que produz mais efeitos positivos...
Mas é sempre assim? Claro que não!
Descobri, nesse exercício extremamente prazeroso e doloroso de olhar a vida, que uma quantidade consideravelmente grande de pessoas costuma fazer péssimo uso do perdão que recebem. Como? Deixa eu tentar explicar também.
Algumas pessoas tem de si uma visão tão autocêntrica que, em primeira mão, acham que, obrigatoriamente, precisam ser perdoados. Têm para consigo mesmos uma visão tão misericordiosa que, cometendo erros, quando diante da possibilidade de não serem perdoados, sentem-se ofendidas, injustiçadas, não importando o mal que possam ter feito a outrem. Esse é o principal traço da personalidade dessas pessoas: uma concentração tão absurda em si mesma, no seu estado emocional, que se colocar no lugar do outro para avaliar consequências se faz uma tarefa quase impossível.
Mas os danos desse tipo de mal recebedores de perdão ainda não estão esclarecidos. Tudo bem! Choram, reclama injustiça, até admitem o erro (levando mesmo a fazer achar que refletiram sobre) e, na maioria das vezes, acabam recebendo perdão. No caso anterior, o ideal, falamos do perdão como a chance de fazer refletir e não incidir novamente no mesmo erro, não foi? Com esse tipo em específico não é assim. Não sei que “tiuti” da no juízo que o perdão se faz parâmetro para errar mais.
Já se acham, a todo tempo, merecedores de perdão. Ao ser perdoados, confirmam isso, e acreditam que acharam o caminho, que quem perdoou uma vez, vai perdoar de novo e, para decepção, se não da humanidade inteira mas minha, voltam a repetir o mesmo erro que já foi colocado em cheque antes, só que com um grau maior de má fé – na primeira vez talvez não tivessem noção dos possíveis danos às pessoas ofendidas, mas, nas vezes seguintes, essa ação danosa se faz totalmente consciente.
Pobres de nós que corremos esse risco... e digo de nós, porque, gente como toda a gente, não vou cuspir pra cima e ver cair na careca, sujeito a mesma condição confusa de ser gente, humano, em construção.
Por isso vivo a refletir e, embora isso produza uma profunda dor na alma quase sempre, sofre-se com um considerável gozo, o de saber-se construindo, moldando; não mais alguém fadado a nascer, crescer, trabalhar, trabalhar, trabalhar mais um pouco, reproduzir, trabalhar, trabalhar e morrer; o gozo de saber, não aonde ir, mas como quem pretende ser ao chegar.
Para finalizar, como sempre o desejo profundo, de que o mundo se encha de excelentes perdoadores mas, ainda mais, que se multipliquem as pessoas com zelo por suas relações humanas, as mais diversas, de forma a fazer crescer a capacidade de se colocar no lugar do outro, antecipar o que doe e evitar o corte, minimizando a necessidade de se pedir perdão. Com mais “perdoadores” e menos “pedidores de perdão” teríamos uma equação bem mais ajustada nessa seara de oferta e procura.

Como estímulo, fica essa arte que me encantou essa semana:

4 comentários:

Gera Souza disse...

Sempre tive dificuldade com este tema, por não saber sobre a intensidade que ele provoca em nós! Achava meio maçante e puramente religioso! Anos após o falecimento de minha mãe, passando por grande sentimento de culpa, recebi a redenção do perdão! Foi um momento marcante e libertador! Trouxe-me uma gama de sentimentos bons, altruístas!
Seu excelente texto me fez repensar tudo isso!
Grande abraço

Deserto disse...

FICO FELIZ QUE O TEXTO TENHA SIDO ACOLHIDO POR VC, AMIGO GERA SOUZA!!! RETRIBUO O ABRAÇ!!!

Deserto disse...

FICO FELIZ QUE O TEXTO TENHA SIDO ACOLHIDO POR VC, AMIGO GERA SOUZA!!! RETRIBUO O ABRAÇ!!!

Dih Melo disse...

Inteligente, tocante! Muito bom, gostoso de ler.
Uma bela forma de ver a vida!
Continue assim nos alimentando a alma com seus postes brilhantes!
parabéns! Um grande abraço