terça-feira, 12 de julho de 2016

FLORES DE INVERNO

Inverso ao que é próprio do inverno, nesse ciclo ele aqueceu, descongelou, como num processo criogênico, uma parte de mim tão essencial, tão sublimemente essencial, que minh’alma parece mesmo colher flores que parecem regadas de memórias, de memórias de sorrisos, de memórias de liberdade, sonho...
Acho que a alma tem mesmo desses artifícios de, vez ou outra, criar pontes que parecem se projetar de nós mesmos para nos libertar dos abismos que equivocadamente cavamos...
O fato é que, em pleno inverno, minh’alma floriu...  
Tentar trazer à palavra essa sensação é uma tarefa tão confusa, porque sempre que acesso isso em mim, a vontade primeira é fechar os olhos e ficar no mais profundo silêncio, experimentar apenas, mas não posso não comunicar, é muito pra ficar em mim.
Sempre tive o hábito de experimentar a vida... Já nasci com esse suposto defeito de fabricação, mas se me convidassem a tentar ensiná-lo diria: aguça teu olhar e presta atenção em tudo, não deixa escapar à tua sensibilidade nenhum detalhe!!! Talvez esse seja o mistério: uma vida de sensíveis detalhes. É nas sutilezas escondidas que a vida mostra sua exuberância! A alegria real não está na festa surpresa, com o bolo gostoso e os amigos sorridentes; está, na verdade, no momento em que alguém, motivado por amizade, quis celebrá-la fazendo a festa. Embora palavras bonitas encantem nossos corações, o amor talvez não esteja nas palavras afetuosas aprendidas em romances e poemas, mas na bronca grosseira e impensada de alguém que nos ama demais para aceitar sermos menos que o melhor que podemos ser ou fazer (ao menos naquele momento).
A diferença está nos detalhes, em particular nos aparentemente escondidos. A verdadeira brincadeira é encontra-los. Talvez eu tenha maior facilidade em perdoar um erro grande e imbecil, mas me firo mortalmente quando se descuidam dos detalhes... Eles são a exceção, não a regra... É o que sai do script... É aquela marca única que deixamos nus nos outros, tão individual e irrepetível quanto nossas impressões digitais.
Falava do inverno... nele fui pra casa, minha origem, o lugar sagrado da minha subjetivação onde as paredes, se pudessem delatar quantos sonhos presenciaram me colocariam nu diante do mundo. Reencontrei, sem pretensão amigos com a sensação de que nos havíamos encontrado no dia anterior, quando já fazia anos do nosso último encontro. Sorrimos os sorrisos leves da nossa infância, como se pudéssemos sair da forma que define infância e senilidade. E eu voltei a sonhar com o infinito, a deseja-lo como quem deseja água numa trajetória escaldante pelo deserto, mesmo sendo inverno.
E tudo voltou a ficar tão apertado, os moldes nos quais passamos a vida inteira querendo caber tão incabíveis... Como quando viajamos, fazemos nossa mala perfeitinha e, na volta, mesmo sem nada novo, as roupas não cabem onde há pouco couberam (risos), é que desconsideramos que, viajando, na volta, além de roupas levamos sonhos, que não vemos mas ocupam espaços em nós. Nesse inverno, viajei pra junto de mim e, ao tentar voltar, as coisas já não cabem nas malinhas onde sempre couberam...
Agora não sei lidar com a sublimidade desses dias. O inconvencional dá trabalho! Talvez por isso gostemos tanto dos moldes... os meus já não me servem e a alma se projeta, como num presságio, de que algo espetacular está sempre prestes a acontecer e, embora o desejemos, dá medo. Tendo como meta me tornar uma das pessoas mais felizes desse mundo, equivocadamente, tenho medo de ser feliz demais sem poder entender essa felicidade.
Ao nosso Pai generosíssimo o recado: mesmo sem merecimento, estou pronto para o novo e desde já o agradeço.
Ao povo da casa verde da orla do canal de São Miguel, o Grin, Neidinha, Ana (a bonita), Fabinho (o neguinho de mainha), Zé e Zita, obrigado por guardar partes minhas que, quando em contato com vocês, me fazem mais completo. Sejamos felizes!!! Muito felizes!!! Porque quando um de nós o é, toda a humanidade torna-se mais feliz um pouquinho também.

Sugestão de música:
https://www.youtube.com/watch?v=cCYc8x4w6Lw

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

FOCO NA RELAÇÃO?

Hoje dei por pensar nessa questão...
A palavra FOCO ganhou ampla divulgação em todas as redes de comunicação social quando a linguagem esportiva foi adaptada para a linguagem de negócios e passou a ser gritada em workshops motivacionais mundo afora.
Não é pra menos! Não com pouca propriedade, sempre se estimulou os atletas a perseguirem seu foco, mantê-lo na mente, para não correr o risco de perder a concentração com distrações inúteis que os pudesse tirar o pódio.
Também nos negócios, o foco num resultado específico estimula a não perder tempo e esforço na conquista de resultados paralelos e nada úteis a obtenção do lucro.
Nos esportes o pódio; nos negócios o lucro... Qual o sentido do foco na relação?
Vivemos numa época onde a palavra de ordem parece ser LIBERDADE. Nas relações, essa suposta ideia de liberdade parece vir criando um eu-centrismo onde os espaços de cada um vão ficando cada vez melhor delimitados e, em alguns casos, intransponíveis... A relação se resume a uma interação social num passeio com os amigos, numa festa de família, numa ligação antes de dormir ou, antes e acima de tudo isso, a uma boa noite de sexo. Cumpridas essas condições, parece estar estabelecida a relação...
Mas quando se está no espaço reservado, no suposto ambiente de liberdade, que melhor poderíamos chamar de ambiente do ego, a alma vagueia... São muitos os apelos e de todos os lados: redes sócias, aplicativos, vícios; e cada vez menores as culpas... E culpas porquê? Não é mesmo? Esse já é um hábito comum – TODOS FAZEM!!!
Pensando bem, que mal pode haver em estimular uma paquera numa rede social? Bater um papo via mensenger com alguém que sabemos que tem para conosco quintas intenções?  Flertar com alguém que nos agrada na rua (afinal, não estamos mortos)... Que mal pode haver nisso? Basta que não se concretize! Todo mundo perde aí umas horas fuçando no perfil pra ver se aquela paquera antiga que nunca mais nos procurou já arranjou alguém, ou querendo conhecer um pouco mais de alguém cujo perfil pareceu interessante... Que mal pode haver?
A RESPOSTA É OBVIA – mal nenhum!!! São questões do âmbito do individual. Pode ser até um excelente remédio pra sanar dores ou alimentar o ego dos de baixa estima ou inseguros.
A única questão mesmo está no FOCO ou, melhor dizendo, da perda dele.
Você acredita estar numa relação com alguém... Algum motivo, talvez até um afeto genuíno, te prende a essa pessoa... Mas ela é SÓ MAIS UMA, perdida na quinquilharia do seu múltiplo foco... Nessa dinâmica estabelecida, ela é somente mais uma objeto na sua estante, sem real valor definido, de forma a você em alguns momentos mesmo relativizar seu valor, subjugando-a diante de algo ou alguém de aparente maior valor, acreditando que pode fazer uma substituição sem danos... talvez por isso tantas supostas relações se façam e desfaçam com tanta facilidade... Todas tem valor relativo nessa seara de possibilidades e focos...
Já parou pra pensar que o tempo que você gasta em seus devaneios pueris poderiam ser convertidos num foco afetivo? Sabe aquela coisa de você dedicar tempo em conhecer aquela pessoa que está do seu lado, decifrar-lhe as manias, conhecer os sonhos e as taras e ir realizando-os suavemente e devagar... Pouco a pouco, o tempo dedicado àquela pessoa em particular vai mostrando o quanto ela é única, incrível, cheia de medos cuja sua coragem seja capaz de dar segurança e forças para suprir os medos seus... Na distância, a companhia que passa a te agradar é a lembrança dos momentos incríveis juntos ou o planejamento da próxima arte a realizar...
O foco singulariza o amor, estabelece relação, faz-lhe brilhar, ao passo que o múltiplo foco relativiza, minimaliza, adormece a paixão.

Talvez o que nós precisemos de verdade é de mais pessoas com menos foco no umbigo e mais foco no amplitude que o outro é capaz de abrir...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

TÃO EU!!!

Hoje acordei tão eu... kkkkkkk...
Sei lá! Existem muitas formas de acordar... O espelho é quem reflete essas formas: às vezes acordamos e nos achamos bem bonitos; outras vezes nos achamos um bagaço...
Mas hoje eu me achei tão EU! Nem bonito nem bagaço – EU apenas...
Olhei e me vi sem adereços, sem roupas, sem enfeites, sem cuidados... Barriga quebrada por cirurgia recente, barba feita há dias e agora sem formato nenhum, resto de cabelo por fazer (um careca precisa cortar os cabelos com mais frequência que um cabeludo, por mais estranho que possa parecer (risos não, “gaitadas”)...
Olhei esse conjunto aí, que está mais para o ruim que para o bom mas, pra minha surpresa, GOSTEI TANTO!!! Olhei-me nos olhos no espelho com uma emoção tão gostosa que, sem saber ao certo como explicar, acho que se assemelha a de alguém ao acordar ao lado do seu velho companheiro, remelado e com aquele velho bafo matinal, no mais íntimo do seu coração pensa: “como é bom acordar ao seu lado, meu velho companheiro de tantas lutas...”, e enxerga nele BELEZA. Talvez não a beleza estética que nossos dias de aparências apregoam, mas a beleza dos dias, dos sóis que pigmentaram e marcaram as rugas que são testemunhas de tantas coisas, das mais simples às mais incríveis...

Olhei pra mim, essa manhã, assim!!! Algo como se olhasse para um outro alguém com quem me fez muito bem acordar junto, mesmo com o “bucho quebrado”, a “cabeleira meia” e a barba por fazer e enxergasse a beleza comum, simplória e escondida na nossa cotidianidade...