sexta-feira, 5 de julho de 2013

OLHARES XXI - Quando a felicidade se faz parâmetro para a infelicidade


Costumava dizer que duas coisas nos estragam: tristeza demais e felicidade demais.
Como assim? Deixa eu tentar explicar: o excesso de tristeza produz em nós uma espécie de barreira de defesa; quando conhecemos tristeza em demasia, tudo em nós se move, ao invés de para a produção da felicidade, no intuito de evitar a dor e a tristeza. Pessoas muito sofridas costumam desconhecer o caminho da felicidade, porque ela deixa de ser a meta; a meta passa a ser o “não sofrimento”, e talvez nisso a nova forma de felicidade conhecida e desejada.
Acho que, até aqui, é fácil entender, né? Mas tem o inverso, extremado como esse: ser feliz demais é tão complicado quanto ser triste demais. Por quê? Imagine você que só conhece de doce rapadura, certo? Sempre que ela pensa em doce, o que lhe vem à mente? RAPADURA! KKKKKKKK... Se vier algo melhor que isso, é puro lucro, porque seu paladar queria apenas o doce bruto da rapadura e com ele já estaria satisfeito. Mas, de repente, numa dessas idas e vindas da vida, a essa pessoa é oferecido o mais saboroso manjar... Imaginou a danação? Sempre que pensar em doce, sua mente o remeterá ao doce mais saboroso que já provou - o manjar. Mas manjar não é um doce assim tão comum, daí, tudo que lhe for oferecido vai parecer insuficiente, apenas um “pelo menos”. Pode até satisfazer, mas uma brecha, uma falta vai haver.
Acho que assim ficou melhor explicado e feita a base para nosso olhar XXI: Quando a felicidade se faz parâmetro para a infelicidade.
Minimamente, apenas pela explanação anterior, podemos deduzir que ser felizes demais nalgum momento da vida pode nos trazer infelicidade se aquele padrão não é atingido noutro, mas o olhar que aqui proponho nos remete para uma dimensão ainda mais singular.
Por exemplo: Você vive uma relação afetiva incrível; ela acaba; mas torna-se referência de felicidade, e você passa a tentar repetir ou até superar aquele padrão de felicidade nas relações posteriores, e segue tentando... Se não consegue, a razão age generosa lhe mostrando o quanto as pessoas são diferentes, o quanto os tempos são outros, o quanto você pode inovar por ser uma nova relação... e assim por diante...
Mas quando o parâmetro para comparação, de um esplendor de felicidade, está na própria relação que você está vivendo?
As pessoas são as mesmas; os sentimentos “os mesmos”; a rotina a mesma... Nisso um nó para a razão! O parâmetro para comparação dessa relação não é outra relação, é a própria relação. Você conhece os mecanismos de acesso á felicidade nessa relação, porque já o experimentou, mas, de repente, parece não saber acessá-lo mais. Você tenta, a todo custo, retomar aquele padrão de felicidade, sem, no entanto, conseguir, e a alma se constrange. A felicidade aqui torna-se condição para a infelicidade.É como desejar comer o manjar, ter o manjar na geladeira, e ele não ter o mesmo gosto. Mas como se é o mesmo?
Será que é o mesmo??????
Com certeza não! Talvez nessa certeza confusa, de que sendo o mesmo não é o mesmo, esteja a chave que abre essa porta. Mesmo sendo as mesmas pessoas envolvidas na relação, essa relação, na verdade, são relações, são novas formas de se experimentar que vão assinalando os novos tempos que se vai vivendo. Quanto mais tempo se vai vivendo junto, mas relações se vai vivendo, mas dinâmicas numa mesma relação se vai experimentando, mesmo sem perceber, mesmo achando estar se vivendo a mesma relação e, para cada nova dinâmica, uma ideia sensível de felicidade diferente.
Palavras aparentemente fáceis, mas na prática não é tão simples assim, eu sei!
Mas talvez lançar olhar sobre essa complexa dinâmica nos possibilite desejar, nas nossas relações, não a manutenção de um parâmetro fixo de felicidade, mas o exercício das inúmeras felicidades, diferentes, algumas novas, outras já conhecidas, outras mais intensas, outras suaves, mas diferentes, de forma que a felicidade deixe de ser parâmetro para a infelicidade, mas para o desejo de ser feliz ainda mais.
Que ser felizes seja a meta, o projeto, a empresa, e a rotina mais rotineira e repetitiva que possamos experimentar: todos os dias, dias de ser felizes.

Mais um, entre tantos já feitos nessa página, brinde à felicidade!!!!!!

3 comentários:

Israel Freitas Silva disse...

O problema todo é que o ser humano acostuma com a felicidade e com a tristeza. Talvez a padronização de uma condição de felicidade seja mantido como exemplo pelo resto da vida. Ao findar essa condição, o ser humano, procura outra situação onde se possa trazer de volta a condição passada de felicidade nos mesmos padrões. Nem sempre isso é possível. Temos que estar abertos a outras experiências. Padronizar e tomar como exemplo é errôneo. O mesmo vale para a tristeza. O medo de passar de volta pela mesma situação, faz com que ficamos numa busca eterna de não retorno de condição infeliz. E assim entramos num loop infinito.

Dama de Cinzas disse...

Cheguei aqui por um link no face do Israel. Gostei bastante do seu texto. Realmente a gente se acostuma em estar num dos dois polos, mas a vivência nos ensina que o meio é o melhor lugar para estar quase sempre, é isso que busco hoje em dia.

Beijocas

Homossexual e Pai disse...

este texto dava para virar uma palestra, um seminário e um congresso! parabéns! fiquei pensando em muita coisa depois de ler! abs!