terça-feira, 26 de março de 2013

OLHARES XX – "Páscoa???"



            Puxa vida!!! Essa Páscoa (2013) nos veio bem intensa: um novo Papa, que coexiste junto a um outro emérito; problemas econômicos na antes inoxidável Europa; um assessor de direitos humanos no Brasil mulato e de alisamento e chapinha no cabelo, mas declaradamente preconceituoso com raça e homofóbico; a França, berço da cultura humanista e dos direitos humanos marchando contra esses mesmos direitos.
Sejamos todos muito bem vindos a pós-modernidade!!!
Acho muito cabido essa prévia reflexão, vivemos uma troca constante entre fazer a cultura e “ser feitos” por ela, e isso não se dá ao acaso, está intrinsecamente ligado ao momento histórico, às respostas que precisamos dar imediatas aos ares do tempo que nos toca – Não existe cultura desvinculada do seu momento histórico nem tão pouco pessoas desvinculadas da cultura, muito menos culturas iguais.
Desejei um “boas vindas à pós-modernidade” e o fiz porque, em tudo que tenho refletido, estudado, tentado sentir sobre esse tempo, tento situar nesse contexto – não podemos pensar o atual com o olhar do antigo (embora o antigo olhar ainda tenha muito peso em nós). Mas afinal, o que tem esse tal tempo pós-moderno? Para responder, não vou entrar em elucubrações científicas, apenas apelar pra sua sensibilidade: há 30 anos atrás, telefonia móvel eram propostas de filme de ficção científica – na atualidade não nos vemos sem os celulares; nos comunicamos incessantemente sobre tudo e para tudo e, sem menos confusão mental, nos pegamos imaginando como era quando não os tínhamos (já pensou nisso? Já fez o exercício de, num momento onde o celular foi bem útil na resolução de um problema, imaginar o tempo, não distante, onde não os tínhamos????); E a internet??? Gente, me pego pensando quando, há bem pouco tempo, enciclopédias caríssimas enfeitavam as salas ostentando um “Q” de “aqui tem uma família culta” e, pobres de nós, passávamos um tempão procurando algum assunto específico e fazendo manuscritos para entregar na escola, fechados e condicionados a uma realidade extremamente imediata a nós, alheios a um mundo que parecia enorme e distante de nós e para o qual parecíamos indiferentes – um mundo de figurinhas na enciclopédia). Não só! Pela internet nos comunicamos, fazemos compras, pagamos contas, acessamos informações por todo o mundo e nos conectamos a esse mundo quando decidimos emitir nossa opinião (como aqui fazemos). Em resumo, tivemos mais desenvolvimento tecnológico nas últimas quatro décadas que em todos os séculos de cultura humana anteriores. Produzimos essa cultura de informações express e somos produzidos por ela, mas não com poucos danos e poucas tensões. Somos muito resistentes a mudanças!!! Produzimos mudanças constantes que nos obrigam a mudar junto, mas somos temerosos em mudar. A queda de barreiras territoriais promovida pela internet abriu nossas culturas para uma apreciação coletiva e algumas questões, latentes em todas elas, passaram a circular e exigir reflexão sendo, algumas das mais imediatas, os direitos humanos e as novas configurações de gênero e as respectivas famílias produzidas por elas.
Esse meio cultural aparentemente hostil, pela sua flexibilidade, empurrou, ao mesmo tempo que para o mundo como um todo, cada um de nós para dentro de nós mesmos numa atitude inconsciente de autopreservação. A antiga cultura, com papeis bem estabelecidos, com o aparente conforto dessa linha quase reta a ser galgada, sede lugar a uma nova onde não há certeza alguma a não ser a de que as coisas continuaram mudando e, com as mudanças, precisamos dar respostas; e essas respostas são extremamente pessoais. Nesse ponto, no ponto da extrema pessoalidade em que vivemos, experimentamos um mundo de coisas não mais sujeitas a uma apreciação por olhos moldados e adestrados para um jeito específico de olhar, mas de olhar curioso, criativo e, esse olhar egoísta, produz uma humanidade nova, que exige ser vista e reconhecida nas suas variadas formas de construir sua felicidade. Nessa perspectiva, o antigo ditame resumido em: “homem de bem, mulher de bem, cafajeste, puta, veado e sapatão”, sede lugar a uma gama imensa, e não passível de catalogação, de possibilidades de ser no mundo. Mas esse ser complexo, pós-moderno, sem catalogação, não nasceu de chocadeira, veio ao mundo inserido numa família e também vai constituir família. Nesse ponto mexe-se no eixo sustentador de uma cultura milenar e de todas as instituições normatizadoras que balizaram nosso pensamento até aqui.
Esse é, em linhas gerais, o contexto. Vamos agora aos nossos pontos de reflexão de páscoa:
Um papa renunciou!!! Que maravilha!!! É ou não é esse papa um homem pós-moderno??? Claro que sim! Ao ver deixar-lhe a força física necessária para o cumprimento necessário do seu ministério, quebrando um protocolo medieval, deixa o “trono” pedindo que ele seja ocupado por alguém que possa dar respostas mais apropriadas as necessidades e ao tempo. Um lindo exercício de humanidade, não foi? Os mais céticos podem dizer – “foi necessidade!” – mas onde mais se revela nossa humanidade que não nas necessidades e exigências do tempo? Enfim! Depois de breve burburinho: “habamos papam”. Quem é? FRANCISCO, um latino americano com nome escolhido em alusão a Francisco de Assis, um grande reformador do pensamento medieval que propôs um olhar de igreja e do mundo para os pobres, um burguês que exercitou sua fé no abraço ao objeto de maior preconceito da época “a lepra”. Devemos esperar que o Francisco, contemporâneo nosso, também quebre preconceitos e se aproxime de quem os sofre??? Sim! E não!
Não sei se vocês perceberam, mas nunca tivemos tanta expectativa no que diz respeito a escolha de um papa, especialmente num período de suposta perda de influência da Igreja católica. Mas porque o esperamos tanto??? Porque esperamos ver suas posturas para nela nos espelharmos. Perdidos, entre tantas realidades nos tocando todo o tempo, somos saudosos da velha  “viseira de burro” que nos conduzia sempre e apenas para frente e para um lugar específico.
Mas devemos esperar que o papa toque, acolha, esse novo jeito de ser humanidade na pós-modernidade. Não! Não devemos criar expectativas! Estamos no meio de uma revolução e nenhum de nós está ainda assim tão apropriado do contexto para desejar posturas definitivas. Estamos em processo; estamos no olho do furacão; embora a complexidade da condição humana seja antiga e estivesse apenas esperando aprender a falar de si, o dito até agora ainda não é inteligível o suficiente para romper os preconceitos. Devemos esperar do papa, assim como em toda a sociedade, um saudosismo da família tradicional, aquela com papeis bem definidos e que deu as respostas necessárias no seu tempo específico. Ela não vai deixar de existir! E que bom que não vai! Não queremos abrir mão dela também! Devemos desejar que ela coexista, ensinando as famílias novas de sua sabedoria. O tempo não propõe trocas, propõe anexos. Vamos assistir e, se sábios, sem tensões, a retomada da identidade da família tradicional, que precisa se reencontrar entre o antigo e o novo; esse retomar identitário da família tradicional é quem vai abrir portas para o novo porque é no seio dessa família tradicional que é gerada a nova humanidade com toda a sua complexidade. Quando a “NOVA FAMILIA TRADICIONAL” acolher seus filhos em sua complexidade, teremos campo fecundo para discutir as novas famílias.
Mas o que devemos esperar do papa Francisco então? No mínimo, que ele olhe para os membros da Igreja, reconheça neles o germe da pós-modernidade, olhe neles para além da uniformidade da liturgia e dos hábitos, para a singularidade e complexidade e criatividade ali escondidos e que precisa fecundar a Igreja de um novo ânimo. Um olhar medieval numa estrutura medieval para acolher pensamentos pós-modernos é a receita perfeita para distúrbios internos. Se o papa cuidar bem da singularidade dos que fazem a Igreja católica, teremos lideres religiosos mais bem resolvidos, mais felizes e mais encontrados em sua vocação e significação no mundo, mais um excelente campo para se discutir a nova humanidade.
A Europa sempre ditou regra para o mundo. O suposto berço da civilização, com suas culturas já experimentadas e enraizadas, suas economias fortes e seu povo cheio de si. Vivemos tempos mutantes, falamos sobre isso na introdução desse olhar. Nesses novos tempos nada é definitivo, tudo está posto a mudar a qualquer momento e, com a Europa, não foi diferente. Abalaram-se as economias; dinheiro mexe no eixo de segurança de vida das pessoas; abalaram-se as antigas estruturas que faziam aquele povo tão cheio de si. Tanto que, não com menos propriedade, o novo para é latino-americano – sede-se um dos mais respeitados “tronos” para alguém de uma cultura de dominados que tende a suplantar seus dominadores. Novos tempos, minha gente!!!
E a macha da França a favor da família tradicional e contra o casamento homossexual???
Logo a França? Me perguntei. Eu sempre admirei a França por ser esse sinalizador da cultura dos direitos humanos e, de repente, é justamente de lá que vem a macha do retrocesso? Mas não tem retrocesso nenhum nisso! A Europa está abalada pela série de intempéries que tem sofrido. Aquele povo era hegemônico justamente num tempo onde as estruturas tradicionais ditavam o rumo dos tempos. Nessa perspectiva, não obstante assistiremos esse e mais outra série de acontecimentos aparentemente retrógrados que nada mais são que a tentativa desesperada desse povo de fazer voltar as antigas estruturas que aparentemente sustentavam sua hegemonia como se, fazendo voltar o velho pudessem, com ele, voltar ao topo. Mas, não esqueçamos, eles tem direito de tentar, tem direito de querer o que quiserem querer. Não podemos nos dizer pessoas abertas ao novo se formos intolerantes ao direito do outro escolher o que, escolhendo, o faz por acreditar que vai ser melhor pra si e, como já vimos, não há mal nenhum em se querer que a família seja a base e o sustentáculo da nossa cultura e da nossa sociedade.
E, em se falando de direitos humanos, tivemos, aqui no Brasil, a escolha catastrófica de Feliciano para a secretaria dos direitos humanos. Seria cômico se não fosse trágico! Mas gente, foi um dos mais recentes e mais significativos propulsores de uma tomada pública de posição que vimos nos últimos tempos dentro da esfera pública do Brasil. Assistimos anualmente há 13 anos milhões de pessoas ligando para decidir quem fica ou sai do big brother e, por essa escolha arbitrária, tivemos a alegria de ver acontecer uma tomada de posicionamento democrática de centenas de pessoas, nas redes sociais, querendo fazer públicas suas posturas a esse respeito – não chegamos aos milhões do big brother, mas já foi um excelente começo. Dentre os manifestos mais sagazes e inteligentes, li um, atribuído a Rita Le, que dizia mais ou menos assim: esse homem é mulato, não é? E tem preconceito contra afrodescendentes? E esse cabelo alisado e com chapinha? Hummmmmm... Também é homofóbico? Kkkkkkkkkkkk... Pobre Feliciano, um homem pós-moderno, mulato, metrossexual que, para ter sua parcela no comércio crescente da fé no Brasil, emitiu seu discurso sem base e sem fundamento de separatismo e preconceito, se vê agora tendo de desdizer o dito para garantir seu lugar num comércio bem mais valoroso na política brasileira. Esse homem não me representa também! Não pelas palavras infames – foram interesseiras e pontuais, cabidas dentro de uma cultura especifica para garantir um bem específico; Não me representa justamente pela falta de um posicionamento real, seguro, indiferente a benefícios pessoais.
Caramba! Pra quem não gosta de ler, essa postagem ultrapassou todos os limites, kkkkkkk...
Mas, depois de tudo isso, cabe-nos agora perguntar: ONDE ESTÁ JESUS EM TUDO ISSO?
Está na Igreja católica? Sim, está! Na macha da família? Também! Em Feliciano? Claro que sim!
JESUS ESTÁ ONDE SEMPRE ESTEVE! Indiferente às vicissitudes dos tempos? Nunca! Ao contrário: respeitoso a condição suprema do livre arbítrio humano, deixando que nós construamos nosso tempo, façamos nossa história.
JESUS ESTÁ ONDE SEMPRE ESTEVE! Ele não muda! As pessoas mudam! Os tempos mudam! Houve um tempo em que a Igreja defendia o preconceito racial pregando que negros não tinham alma. Isso nada tinha a ver com Jesus, era ditame social, humano. Hoje defende a igualdade de raças. Não foi Jesus quem mudou, o mundo é que mudou – e continua mudando.
JESUS ESTÁ ONDE SEMPRE ESTEVE! E é, certamente, a imagem mais apropriada a nos guiar nesses tempos de confusão e dúvidas: comeu com publicanos, perdoou adúlteras, olhou com amor para fariseus, acolheu no reino recém inaugurado por seu sacrifício um ladrão. Ele vivia a máxima que resume sua pregação e é apropriada a todo e qualquer tempo instaurado pela raça humana: AMA A DEUS E AMA O TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO!
Nessa máxima, condição indelével para o fim do preconceito, para o respeito e acolhimento a qualquer diferença, para o fim da fome e da miséria, para a confraternização entre os povos, e para a tão sonhada PAZ.
Ah! Termino esse texto muito emocionado. Como foi bom reservar esse tempo em meio a essa correria toda para pensar a páscoa com vocês. Na etimologia da palavra páscoa temos – passagem, e agregamos o conceito – libertação. Vivemos mais que uma data comemorativa, vivemos um tempo de páscoa, de passagem, de mudança, de novas formas de ser no mundo. Que saibamos fazer essa transição mais leves, deixando para trás antigos pesos que já não correspondem a quem e como somos humanidade hoje, libertos de ideias separatistas... E que seja um o lema supremo  a nortear nossa passagem: AMA A DEUS E AMA O TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO!
Uma excelente, reflexiva, sentida, humana, páscoa para todos!!!

Rennan Barros
OBS: Acho essa uma das imagens mais apropriadas do Cristo Ressuscitado...

Um comentário:

Dal Fercondini disse...

Muito bom! você é um artista maravilho.