quarta-feira, 1 de abril de 2009

DEIXAR PARTIR...

Esses dias dei por pensar num assunto extremamente doloroso: deixar partir...

E dele não podemos fugir porque, de uma forma ou de outra, estamos sempre tendo que deixar partir algo ou alguém... Mas qual a razão de ser tão sofrido todo ato de deixar partir, mesmo quando dor parece não se sentir?

É que vivemos nos atando, nos infundindo, nos misturando em tudo e com tudo que nosso coração toca... e também, por que não dizer nos transformando, nos fundindo? Ao se tocarem as tintas em verde e vermelho resulta o azul – nova cor, novo tom, nova matiz...

Ao se encontrarem vermelho e verde formando o azul, pode-se dizer, da parte misturada, fundida, que azul em vermelho e verde possa se desfazer? Claro que não!!!

Mas, e na hora das despedidas, na hora de “partir”, no momento em que se faz necessário dividir os bens conquistados no encontro e “partir”, ficará o vermelho com parte do azul e também o verde com parte dele...

E por que dói tanto deixar partir???

Porque na parte azul que fica com o vermelho está misturado um pouco do verde (lembra?), o que implica dizer que parte do verde teve que ser dele amputado; semelhante ao verde, que tendo o azul consigo, na partida, parte do vermelho amputou e trouxe...

Daí toda a dor de deixar partir... Não queremos perder!!! Somos extremamente apegados a nós mesmos e, na hora da partida, da partilha, desejaríamos não ter que perder nenhuma parte de nós, o que já inclui a parte misturada...

Eita (Geo vai me “passar um gato”, por tantas metáforas e pouca objetividade... kkkkkkk... Desculpe, coleguinha)...

Vou tentar, em honra do frei, ser mais objetivo e concreto!!!

Falemos então das partidas que não podemos evitar... de quando temos que deixar partir sem escolher... apenas nos acostumar...

E nenhuma partida é tão exigente quanto a definitiva, a da morte!!!
De minha parte recordei que não tive como me preparar de antemão... Ao tocar-me a morte (porque morri um pouco também) me vi diante de deixar partir três das pessoas que mais amei nesse mundo: Meu avô “Manon”, minha gatinha “mãe Julia” e o meu irmão mais velho “Leto”. Desse “deixar partir” a coisa mais exigente pra mim foi ter que amar até o fim; amar até quando não fosse mais possível amar; amar a quem, por sentidos comuns, já nem podia mais saber-se amado... Foi muito exigente amar até o fim cuidando de idas que me eram tão dolor(idas): cuidar, banhar, vestir, escolher caixão como se fossem porta jóias para algumas das jóias mais preciosas que o Dono do tesouro me deu e pediu de volta...
Nada é mais exigente que amar até o fim!!! Amar até quando não dá mais pra amar, mas precisa amor haver para que haja justificativa, razão de ser, para o que se faz... E se todos os que partem deixam algo de si levando algo de nós, de alguma forma já estou um pouco no céu e são um pouco vivos em mim os que amo...

Mas além desse deixar partir ao extremo exigente, existem outros ainda que se dão, alguns já dando sinais e outros aos quais nos negamos a ver e só nos damos conta quando a partida já foi feita e a parte faltante há muito sangra...

Dei-me conta, a partir de mim mesmo, que se processava em mim meio que uma prisão ao passado, uma fixação em tempos e pessoas que já não são, que outros são... Que fiz de algumas pessoas, num momento passado, uma imagem sobre a qual fundei amizade, afeto, mas que essa imagem não progrediu, não se atualizou. Por causa dela os ditos amigos, sendo ainda os mesmos, pareciam outros. Algo como você ver uma criança e reencontrá-la mais tarde em mocidade e dizer: “É fulano? Não pode ser... É nada!!!”... Só depois de passado o momento da estranheza é que se diz: “De fato, é ele mesmo, tem ainda os mesmos olhos...”.

Mas e eu aceitei assim, fácil? Kkkkkkkkk... mas de jeito nenhum!!! Chorei!!! Reclamei!!! E, enquanto pude, neguei-me a aceitar... Mas quem pode parar um rio correndo?

Tive que me adaptar e deixar partir o que, há muito, havia ido... Tive que, achando menos belo o agora que o ontem, fazer o exercício de busca da beleza no que restou... Tive que, ao saber ido o que partir só agora me dei conta de deixar, aceitar que algumas coisas que um dia foram muito agora são cordialidades diplomáticas – necessária adaptação - e doem ...

E ainda hoje disse a Manezinho desse PROCESSO posto que ainda estou aprendendo a atualizar algumas imagens e sofrendo, como nos jogos de palavras de pe. Airton, as “partes(idas)”.

Kkkkkkkkkkkk... Sei que ninguém lerá essa postagem até aqui porque todos reclamam de textos longos... mas ainda tenho algo por dizer aos que, perseverantes, mantêm-se seguindo essa simples linha de pensamento...

Falamos, até aqui, de partidas que não escolhemos... De partidas com as quais tivemos que a algumas aceitar, outras nos adaptar... cada uma com sua dor e seu aprendizado... Mas há ainda as partidas escolhidas; aquelas que se fazem necessárias. Essas, sendo das mais constantes, merecem nosso cuidado posto que, na maioria das vezes, botam em desacordo razão e coração.
Pois bem, por um exercício de escolha (e por toda ela um preço há de se pagar), ás vezes vemo-nos diante de laços que embora ao coração não se admita perder, deixar partir, a razão sabe da necessidade de alforriar...
Essa é, do deixar ir, das escolhas as mais confusas porque desarrumam a casa, botam em desacordo a harmonia do matrimônio entre a razão e o coração que, embora se digladiem a priori, só com o tempo, juntos, verão e concordarão da importância de algumas partidas... e ao fazer as pazes, ao tentar arrumar a casa, encontraram sempre formas mais excelentes de organização, ficando o lugar interno (na maioria das vezes) melhor e maior do que antes do desarrumado...

Imagem que nos vale como exemplo, e que muitíssimo me agrada, sendo essa a estação que hoje vivemos, é a do outono... quando, para se ganhar, é preciso algo perder... Contra seu apego e necessidade, as árvores “deixam ir suas folhas” que, ao cair, secam e fecundam o solo cumprindo sua função, e a matriz, por sua vez, florirá em outras folhas e flores...

Como para Manezinho repito o estribilho que citei ao falar do ter que deixar partir:
“Eu daria tudo pra não te perder assim... Mas o dia vem e deixo você ir...”

Deveríamos, em toda partida, olhar para o Cristo eucaristia, que se parte e deixa ir de si sempre, e em cada parte é todo e tudo, sem nunca perder de si, sem nunca diminuir, sem nunca deixar de amar...


P.S. Ah! Aos que conseguiram ler até o fim, obrigado por justificar a razão minha de escrever... que de algum aprendizado pra nós tenha sido... beijo!!!

Um comentário:

Ana Alice disse...

li até o fim viu? [:P]

apesar de ter sido um quanto como dificil de acompanhar a sua linha de raciocinio até porque não sei exatamente o que vives... mas posso afirmar que você se expressou muito bem.... é sempre muito dificil falar de partidas [:/]

grande beijooo


fica com Deus


saudadess