quarta-feira, 16 de junho de 2010

A outra margem



Estou do lado de cá da margem...
De alguma forma já desvendei grande parte dos mistérios de cá.
Digo grande parte porque nunca hão de se descobrir todos os mistérios; porque uma mesma flor de hortência, entendida como azulada, pode revelar inúmeras nuances diferentes se submetida a diferentes intensidades de luz...
Intensidade... palavra significativa hoje pra mim! Talvez eu não esteja imprimindo a intensidade necessária aos meus dias de forma a poder redescobrir as muitas faces das mesmas coisas que conheci na margem de cá...
Preciso descobrir a outra margem... descobrir o que o escuro esconde, tão escondido quanto o excesso de claridade... Os caminhos do lado de cá parecem terem-se tornado pequenos para os meus pés, as roupas pequenas para minha alma e o sono insuficiente para os meus sonhos...
E sabe o que é mais estranho?
Sou pequeno!!! Meus pés são pequenos... os meus sonhos são pequenos...
Vivo o paradoxo do pequeno feito grande: abraçar o que é pequeno é um caminho inverso e se faz, por vezes, mas difícil de atingir que a própria grandeza...
Tenho que atingir a outra margem, e isso não implica em mudar, ir embora, talvez implique em posicionar-me de uma forma que mude o foco da minha visão de forma a, distanciando-me, virando-me, olhar para essa exato lugar onde estou, e ponto de partida para qualquer lugar, e atravessar a linha que me separa de mim mesmo, de tudo o que amo e acredito.
Disse que esse atravessar para a outra margem não implica em mudar, ir embora, mas, com certeza, implica em partir. Partir no sentido de ter que coisas deixar para trás, mesmo quando a viagem é de encontro ao refluxo da alma. Partir no sentido de fracionar, que não é necessariamente dividir, mas multiplicar pois, ao “partir” uma coisa que é única, automaticamente se estará multiplicando em, no mínimo, dois...
Partir é sempre significativo em si mesmo, pela saudade que toda part(ida) implica, pela leveza que toda partida gera por não se poder levar mais do que o necessário para bem poder voltar...
Na organização dessa partida, tive que emancipar alguns que, amando livre, prendi. Não os prendi, porque nunca ficaram em si mesmo se não no que deles construí e mantive – nessa manutenção minha prisão... Amei-os na liberdade, mas prendi-me na empresa de querê-los felizes; mas quem disse que compartilhamos mesma idéia de felicidade?
Na margem de cá fui só, sofri-me, sabendo-me só, mas achando-me acompanhado. Na margem de lá, quero estar só sabendo-me só, e assim já não sofrer ausências quando precisar falar – no mínimo, falando a mim mesmo, aprenderei a me ouvir, e talvez entenda a grande evocação que ecoa no coração do todo homem e entenda um pouco mais do sentido por trás de tudo isso...
Estranhas tantas palavras para a elucidação de uma coisa tão simples – partir e voltar (me) para o mesmo lugar de onde olho e sou.
Alguém, aí atrás, chamou a “visão metafísica” do mundo, das relações, e das coisas “tomar no furico”, eu chamo POESIA.

Um comentário:

jose disse...

Pepezinho, você sempre me surpreende. Esse texto de agora, está realmente fascinante... O autoconhecimento que se desprende da leitura, sua experiência de vida, tudo isso, toda essa metafísica, que é poesia, no sentido da arte enquanto necessidade, é muito bonito. Uma experiência catártica como esta sua, é muito difícil de vivenciar. Muitas vezes escure a visão a ponto de fazer sintetizar a experiência humana - de grandezas sutis! - como "tomar no furico". É claro que essa pessoa que se expressou desse modo, estava sobremaneira revoltada por não compreender uma única coisa: A SI MESMA! Apenas isso. A poesia, a "metafísica", expressão inadequada para a experiência do vivido, são necessários a todo mundo, mesmo quando, em momentos tortuosos, o sentido parece desaparecer, para, só depois, brilhar com mais intensidade. A vida é linda e merece ser vivida com toda intensidade e autenticidade possíveis... parabéns por mais essa pérola entre seus textos: realmente emocionante.