quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

QUEBREI A CARA

Quando criança acreditei profundamente no amor...

Quando fui crescendo as convenções do mundo adulto foram me mostrando que amar às vezes dói e, diferente da criança que sobe numa bicicleta totalmente livre e se lança na ladeira pelo simples prazer de pedalar (mesmo sem saber ainda como se para) e se espatifa no muro, aprendi que a armadura é uma ótima forma de proteção...

Essa coisa de armaduras e defesas contra o amor (ou sua dor, não sei) é uma coisa tão sinistra que, uma peça aqui, outra ali, num instante estamos totalmente fechados, vendo resumidamente por uma tela de proteção (lentes das nossas frustrações) e vivendo amores nada livres e sufocados...

Quando criança acreditei profundamente no amor...
E embora essa crença tenha me abobalhado, construiu um mundo simbólico tão profundo dentro que, ainda hoje, “crescido”, tenta fecundar meu jardim de emoções murchas... uma espécie de estufa interior perfeitamente climatizada que gera e nutre, por si mesma, algumas das flores mais sensíveis e raras do jardim das emoções...

Quando criança acreditei profundamente no amor...
E, por ainda de alguma forma o ser, acreditei profundamente nele novamente... Me senti novamente a criança na bicicleta... me despi da minha armadura tão bem confeccionada... e diante do abismo do amor pulei... acreditei... me atirei... E QUEBREI A CARA!!! Kkkkkkkkkkkkkkkkkk...

“Qual é a novidade nisso?” Alguém pode indagar. “Acontece todo instante e com todo mundo!!!”... “Você foi só mais um tolo a pular...”

Eita!!! É duro admitir... mas é verdade!!! Pulei de cabeça e meti meu “bebedor de lavagem” em cheio numa pedra... e doeu muito... me senti envergonhado por estar despido e comecei a procurar minha armadura e a imaginar para ela trancas ainda mais seguras para, mesmo quando pensasse em tirá-la novamente, inibir-me por sua dificuldade em abrir...

Achei e vesti tudinho novamente... e fui chorar escondido nela minha dor e vergonha... Mas tava uma desgraça!!! Só depois de tirar e vestir foi que vi o quanto ela é apertada; até pra chorar fica difícil... acho que por isso choramos tão pouco quando crescemos...

Em meio a agonia de estar de volta aquele ambiente “seguro” e minúsculo lembrei do quanto fui livre e feliz quando pulei e enquanto caia... revivi, em câmera lenta, todo aquele breve instante que se passou entre o pular e o quebrar a cara... e lembrei novamente do meu eu menino na bicicleta: feliz por descer a ladeira, mesmo sabendo que meu limite era o muro logo a seguir... sem pensar nas feridas que saram quer pensemos nelas ou não... e nas que sempre vem e ferem, mesmo quando tomamos todos os cuidados...

Revivi, em câmera lenta, todo aquele breve instante em que acreditei no amor e percebi o quanto ele é valioso... parei de me culpar por ter acreditado...

Não vou ser hipócrita e dizer que me despi novamente da minha armadura (ela é-me necessária), mas decidi tentar usá-la com mais sabedoria... retirei os excessos, preservei as joelheiras e cotoveleiras... uma parte do capacete (porque tenho cabeça dura... kkkkk)...

Não vou pular sempre que o amor chamar... mas clamo ao Amor forças para pular sempre que acreditar de fato, e sensibilidade para aproveitar ao máximo os milésimos de segundo que me separam entre o gozo do pulo e da conseqüência natural da dor na queda...

Quando criança acreditei profundamente no amor...
Ainda acredito... Por causa disso pulei e quebrei a cara... kkkkkkkk...
Mas quem sabe um dia o amor me dá asas...

Um comentário:

Ana Alice disse...

Rennan.. que coisa mais linda... li o seu texto... e mesmo falando sobre uma decepção... você soube retratar de uma forma tão doce e madura que ao término meu coração estava cheio de amor e esperança...


continua escrevendo viu?? seus textos são maravilhosos....


bjaoo fica com Deus