segunda-feira, 13 de julho de 2009

Das pobrezas da desconfiança e da posse


É fato que aboliram a palmatória, mas aprender, em se tratando da vida, em algumas ocasiões, ainda dói...

Acredite você que eu tinha um amigo, desses célebres, por quem nutria um grande bem... Já havia aprendido antes que toda boa relação precisa de alguma construção, precisa de contato, de ideais partilhados, e não se sustenta só com sentimentos, por isso me lancei com esse amigo numa empreitada que além de assinalar nossa unidade ainda ajudaria outras pessoas...

Mas as coisas nunca são como queremos que sejam, e todo processo é sinuoso e nunca linear; para dar cabo ao projeto precisávamos de terceiros, e pouco do planejado restou, e da unidade quase nada, e da amizade ainda menos...

Foram muitas as dores: as de depender e ver mudados os planos no tocante aos terceiros, os empecilhos técnicos, os atrasos cronológicos... mas nenhuma como descobrir não ter o que acreditava ter tido...

Mas nem tudo foi de perdas! Nunca nada é só de perdas! Tive ganhos; bem mais do que imaginava ganhar... Queria estreitar o laço com um amigo que achei ter e acabei fazendo amigos que não esperava...

Vi degenerar a relação que acreditava humana e pessoal com meu amigo numa relação comercial; e as relações de natureza comercial converterem-se em relações humanas de diálogo, acertos e compreensão além de prazos, mercadorias e pagamentos.

Conheci aí um tipo muito estranho de pobreza... Pobreza, não a de não ter bens monetários como aprendemos, mas outra pobreza: a da desconfiança; a de não poder confiar...

Do meu então amigo – desconfiança! E não tenho medo de errar ao dizer “desconfiança” porque ela existiu de fato, porque se não foi da parte dele, foi da minha ao desconfiar que ele desconfiava. Assinalamos assim uma relação carente em si mesma, pobre em si mesma, baseada em sentimentalismos idealizados que não se sustentaram à primeira prova...

Estamos aqui tratando de processos comerciais e sua estreita relação com a falta de confiança, e na falta de confiança um tipo estranho de pobreza, certo?

Mas um outro aprendizado ainda se uniu a esse: o de quem faz das suas relações pessoas um processo semelhante ao comercial gerando um outro tipo de pobreza – a posse.

Faço parte de um grupo de amigos com quem partilho o prazer de ver amigos amigos dos meus amigos... kkkkkkkkkk... Complicou? Deixa eu tentar novamente: ao termos um amigo novo, nosso prazer é apresentar esse amigo aos outros amigos para que sejam também amigos; assim nossa rede só cresce e podemos nos divertir e aprender da vida e das coisas todos juntos num amor nunca dividido, mas partilhado, e assim multiplicado.

Nesse processo um amigo nos apresentou a um segundo, esse sofredor da pobreza da posse e, quando juntos, esse amigo novo quebra a corrente mergulhado nos ciúmes gerados pela idéia de posse. E aqui digamos – BURRA POSSE! – posto que, se entrarmos no mérito dessa bolsa de valores afetivos, o amigo já nos era caro desde muito antes, e somos assim acionistas majoritários... kkkkkkkkkk... Sem contar na energia perdida ao rebater farpas quando a poderíamos empenhar em abraçar ou sorrir...

Todas essas questões só vem nos lembrar do quanto somos humanos e, o sendo, suscetíveis a tudo quanto humano; digo suscetíveis por termos em nós todas as pobrezas humanas (e também as aqui salientadas) em menor ou maior grau, e também porque as sofremos ao entrar em contato com as pessoas que com elas se mostram à nossa frente.

Acho que seria bastante então relembrar algo que aprendi com o amigo primeiro, aprendizado esse de essencial importância em toda e qualquer relação humana, e imprescindível quando nos perdemos em nossas insanas expectativas ao darmo-nos conta de que as pessoas não são como queremos que elas sejam:

Quando Jesus nos exortou dizendo “amai uns aos outros” não usou o substantivo abstrato relativo a sentimentos – AMOR, mas um verbo no imperativo – AMAI (de amar). Fazendo uso das aulas de português que parecem não ensinar nada de fato, recordamos que a diferença entre o verbo e o substantivo está na ação que o verbo encerra, diferente da função de nomear que tem o substantivo. Assim, Jesus não nos exortou a ter uns para com os outros sentimentos de amor porque, conhecedor da alma humana, não nos pediria fazer algo inumano como ter sentimentos de amor (substantivo) por todos quando sabia que também podemos odiar; quis o mestre nos exortar a agir segundo o amor – amar (verbo) – gerando assim uma relação movida por respeito e valorização da pessoa do outro...

Acho que compliquei mais que expliquei, desculpe! Estou assim mesmo meio complicado nesse tempo... Mas prometo uma postagem mais esclarecedora sobre a gramática do amor logo que possível!

Aos meus “amigos”, o da desconfiança e o da posse, a minha gratidão pelo que aprendido antes e também aqui, quando algumas coisas parecem perder a razão de ser! Quem sabe um dia nos encontramos aí mais na frente, movidos por outras aprendizagens e poderemos escrever páginas mais alegres que essa...

3 comentários:

Anne Araújo disse...

Como é bom sempre visitá-lo no seu cantinho e compartilhar dos seus sentimentos.
Sinto-me demasiadamente familiarizada com o texto.
E lembrei que por oras também sou possessiva. Mas logo a razão me acusa e percebo que falhei. Minhas falhas naquele momento foram mais fortes que o meu intuito de acertar.
Fui humana, demasiadamente humana.

S Roberta disse...

Um belíssimo texto para refletir sobre nossa postura enquanto amigos, mas também nossas atitudes demasiadamente humanas... seja de posse, desconfiança ou até mesmo de liberdade. Que na minha opinião é extremamente importante, principalmente quando podemos expressar nossos sentimentos!
Sou muito feliz em não ter que dividí-los (meus amigos), mas poder somá-los a tantos outros... construindo assim uma importante cadeia de aprendizagem.
Obrigada por sua amizade sempre sincera!!!!
Bjs no coração!!!!

Jasp disse...

Rennan, vc é o meu Cecília Meireles, rsrsrsrsrs. A sua capacidade de por no papel aquilo que se passa dentro e fora do ser humano, baseando-se prioritariamente em sua experiência particular e existencial, conferem ao seu texto um qualidade inenarrável. Mais uma vez, estou aqui para parabenizá-lo por esse momento de aprendizagem, que partilhado, nos enriquece a todos. E também agradeço por participar de sua amizade com toda a liberdade do amor, enquanto verbo e adjetivos, que para te qualificar me faltam. Te amo demais!